Zezé Motta leva aos palcos best-seller de Maya Angelou em primeiro monólogo

Zezé Motta

A atriz e cantora Zezé Motta celebra 60 anos de carreira com o primeiro monólogo de sua trajetória, o espetáculo “Vou Fazer de Mim Um Mundo”, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio. A montagem é uma adaptação do best-seller “Eu Sei Porque o Pássaro Canta na Gaiola”, da escritora norte-americana Maya Angelou (1928–2014), e encerra neste domingo (5) sua temporada carioca com sessões esgotadas.

Estrear um monólogo aos 81 anos foi um desafio que exigiu coragem e sensibilidade. “É uma responsabilidade muito grande. A história da Maya é intensa e dura, fala de abusos, preconceitos e superação. Mexeu muito comigo, e demorei dois anos para aceitar o convite porque tinha medo de não dar conta”, confessa Zezé.

A peça percorreu cidades como Brasília e Belo Horizonte, sempre com sucesso de público. “No final das apresentações, o público se emociona, me agradece, sai chorando. As histórias das mulheres, principalmente das mulheres negras, se parecem muito, independentemente do país. Todo mundo se reconhece um pouco ali”, conta.

O texto de Maya Angelou retrata a vida da comunidade negra nos Estados Unidos entre as décadas de 1930 e 1940, durante o período da segregação racial. “O que mais me tocou foi a perseverança dela. Mesmo com tanta dor, ela se levantou e continuou. Isso tem muito a ver com a minha própria trajetória”, diz Zezé.

Para a artista, o título “Vou Fazer de Mim Um Mundo” traduz seu próprio caminho nas artes e na vida. “Eu fiz de mim um mundo, né? Quando olho tudo o que conquistei, faz total sentido. É sobre criar seu espaço, mesmo quando ele não existia”, afirma.

A semelhança entre as trajetórias de Zezé e Maya vai além do palco. Ambas transformaram suas vivências em ferramentas de resistência. “Quando comecei a fazer sucesso, com ‘Xica da Silva’, percebi que faltava um discurso articulado sobre a presença negra nas artes. Foi a partir do curso da Lélia Gonzalez que eu entendi a importância de usar minha voz para abrir caminhos. Acho que a Maya fez a mesma coisa”, reflete.

No espetáculo, Zezé transita entre a atriz e a cantora, integrando canções ao texto. A trilha mistura blues norte-americano com clássicos de Luiz Melodia, Milton Nascimento, Dorival Caymmi e Seu Jorge. “A música me traz liberdade. Como a peça é densa, colocamos canções para aliviar e deixar o público respirar. Tenho dois músicos comigo no palco, o Pedro Leal David e a Mila Moura. Eles são parte essencial dessa entrega”, explica.

Fundadora do Movimento Negro Unificado, Zezé Motta carrega décadas de luta por representatividade. “Eu sempre me pergunto: até quando vamos precisar falar sobre isso? Mas não dá para desistir. Cada vez que subo no palco, é também um ato político”, afirma.

Com mais de 100 personagens interpretados ao longo da carreira e atuações marcantes no cinema, na TV e no teatro, Zezé ainda tem planos para o futuro. “Como atriz, quero fazer uma vilã. Como cantora, gravar músicas que sempre cantei, mas nunca registrei. E, se possível, dirigir mais shows intimistas. A arte é o que me mantém viva.”

O monólogo “Vou Fazer de Mim Um Mundo” encerra a temporada no Rio de Janeiro reafirmando Zezé Motta como uma das vozes mais potentes da cultura brasileira — uma artista que, assim como Maya Angelou, fez de si um mundo inteiro.

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