Violência na Vila Kennedy: criminosos impedem socorro e executam baleado em ambulância

Mulher usa o corpo para proteger filho de tiros, mostra vídeo na UPA Vila Kennedy

A violência na Vila Kennedy voltou a expor o poder do crime organizado e a vulnerabilidade dos profissionais de saúde que atuam na região. Um traficante baleado, com fraturas expostas nas pernas após ser atingido em confronto entre facções, foi levado à UPA Vila Kennedy, na Zona Oeste do Rio. Devido à gravidade dos ferimentos, ele seria transferido para um hospital próximo. No entanto, antes de deixar a comunidade, criminosos interceptaram a ambulância e o retiraram do veículo para executá-lo.

Conforme a apuração do portal Agenda do Poder, o caso, ocorrido há dois anos, simboliza a escalada de terror nas áreas dominadas por facções às margens da Avenida Brasil. A médica responsável pelo atendimento, que presenciou a ação, relatou que a equipe foi rendida por homens armados que cercaram a ambulância com um carro e duas motos. “Quando um criminoso recebe atendimento, ele sai rápido, com medo de ser preso ou morto por rivais. Esse paciente estava muito ferido, então colocamos na ambulância. Mas, na saída, fomos abordados por quatro bandidos armados. Eles o levaram e o mataram logo depois”, contou a profissional.

O episódio faz parte da série “Vidas em Risco: a Saúde na mira do crime”, que revela o cotidiano de medo de médicos, enfermeiros e pacientes nas unidades próximas a zonas de conflito. A UPA Vila Kennedy, instalada às margens da Avenida Brasil, é uma das mais expostas. Segundo o Instituto Fogo Cruzado, a via registra um tiroteio a cada dois dias — número que supera o total combinado das Linhas Vermelha e Amarela.

Nas últimas semanas, o clima de insegurança se agravou. Um vídeo gravado na noite de terça-feira (7) mostra dezenas de pessoas se abrigando dentro da unidade durante uma invasão de milicianos em área dominada pelo Comando Vermelho. É possível ouvir rajadas de fuzil e explosões de granadas enquanto pacientes e familiares se jogam no chão. Uma mãe chega a usar o próprio corpo para proteger o filho pequeno.

A médica entrevistada afirma que o medo é constante e que os confrontos estão cada vez mais próximos. “Antes, os tiroteios aconteciam mais longe. Agora, os criminosos passam armados de moto em frente à UPA. A sensação é de terror. Qualquer tiro pode nos atingir, porque a estrutura é de contêiner. Trabalhar aqui é viver à beira do perigo”, desabafou.

Ela também relata o pânico causado pela presença de policiais que procuram foragidos feridos. “Mesmo quando não há troca de tiros, ficamos em alerta. Não sabemos quem vai entrar, se é paciente, policial ou bandido”, completou.

Na sexta-feira (10), após a unidade ficar na linha de tiro, a Polícia Militar realizou um cerco para garantir a segurança de motoristas e moradores da região. Dois suspeitos foram presos, e os agentes apreenderam uma pistola, um radiotransmissor e drogas.

Para os profissionais da saúde que atuam na Vila Kennedy, a rotina é de medo e resistência. “A guerra do tráfico parece não ter fim. A gente trabalha salvando vidas, mas o tempo todo sente que pode perder a própria”, resume a médica.

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