Violência na Lapa cresce com alta no tráfico de drogas e roubos de celular

Lapa

A violência na Lapa cresce com alta no tráfico de drogas e roubos de celular e já impacta diretamente a rotina de moradores, trabalhadores e frequentadores do tradicional bairro boêmio do Rio. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que, apenas no primeiro bimestre de 2026, o número de registros de tráfico praticamente dobrou em comparação ao mesmo período do ano anterior.

Foram 21 ocorrências de tráfico de drogas entre janeiro e fevereiro deste ano, contra 11 no mesmo intervalo de 2025. Além disso, crimes contra o patrimônio também avançaram de forma significativa. Os roubos de celular tiveram aumento expressivo de 87%, totalizando 293 casos, enquanto os roubos de rua cresceram 58%, com 627 registros. Já os furtos de celular subiram 14%, passando de 661 para 752 ocorrências.

Conhecida por atrair turistas e pela intensa vida noturna, a Lapa enfrenta uma mudança no cenário urbano. Casarões antigos vêm sendo utilizados como pontos de venda de drogas, especialmente crack, o que contribui para a concentração de usuários em diversos pontos do bairro, incluindo áreas próximas aos Arcos e à Escadaria Selarón.

Uma operação conjunta das polícias Civil e Militar, com apoio do Ministério Público, resultou na prisão de 17 suspeitos envolvidos no esquema criminoso. A ação, chamada Operação Colmeia, revelou detalhes da atuação do grupo, ligado ao Comando Vermelho, que também estaria cobrando taxas de ambulantes e feirantes que trabalham na região.

De acordo com as investigações, o grupo instalou pontos de venda em locais de grande circulação, facilitando o acesso de usuários e ampliando o alcance da atividade criminosa. Também foram identificadas práticas de extorsão, com cobranças diárias de até R$ 130 de trabalhadores informais que atuam nas imediações.

Moradores e comerciantes relatam que a situação vem piorando nos últimos meses, com o surgimento de pequenos pontos de concentração de usuários em diferentes áreas do bairro. A presença constante de pessoas sob efeito de drogas tem alterado a dinâmica local e aumentado a sensação de insegurança.

A biomédica Camile de Araujo, que trabalha na região, descreve o trajeto diário como um momento de tensão.
— Já fui agredida às 15h por uma usuária entorpecida e já tentaram me roubar de noite. Não tem horário tranquilo. De um ano para cá, é sempre um horror andar a pé na Lapa — disse, em depoimento ao jornal O Globo.

A aposentada Isaura Oliviere, de 73 anos, também relata mudanças na rotina ao circular pelo bairro.
— São cada vez mais usuários sob efeito de drogas que intimidam ou agridem as pessoas. Moro há 11 anos em Santa Teresa, frequento a Lapa todo este tempo e nunca vi a área assim — afirmou, em depoimento ao jornal O Globo.

A investigação aponta ainda que a estrutura criminosa tem ligação com comunidades próximas, como Fallet-Fogueteiro e Morro dos Prazeres. Ao todo, foram expedidos 28 mandados de prisão, sendo que dois dos principais suspeitos seguem foragidos.

Além do tráfico, os investigadores identificaram tentativas de expansão da influência do grupo para outras áreas, incluindo espaços comunitários, com o objetivo de ampliar o controle territorial e gerar novas fontes de renda.

O impacto já é sentido até mesmo no setor de entretenimento. Estabelecimentos têm reforçado a segurança e ajustado horários de funcionamento para lidar com a nova realidade.
— Nós buscamos reforçar nossa equipe de segurança, além de mudar um pouco o horário de trabalho. Ficam seguranças na porta até o último cliente ir embora. É uma zumbilândia — relatou o responsável por uma casa de eventos, em depoimento ao jornal O Globo.

Outro dado que chama atenção é o aumento no número de pessoas em situação de vulnerabilidade atendidas pelo município. Entre janeiro e março deste ano, foram mais de 10 mil acolhimentos, um crescimento expressivo em relação aos anos anteriores, indicando uma mudança no perfil social da região.

Enquanto operações policiais tentam conter o avanço do crime, moradores e frequentadores seguem adaptando suas rotinas diante de um cenário que se transforma rapidamente no coração da boemia carioca.

E o que ainda preocupa é que, apesar das ações recentes, a tendência dos números indica que a violência na Lapa pode continuar crescendo nos próximos meses, mantendo o alerta aceso no Rio.

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