Quando começa uma eleição para presidente, a gente ouve falar muito de economia, segurança, saúde, educação e infraestrutura. O turismo quase sempre fica para depois. Quando aparece, vem como uma promessa genérica de geração de emprego ou como uma forma de mostrar as belezas do Brasil.
Mas turismo é muito mais do que isso. Turismo é trabalho, renda, desenvolvimento regional, preservação ambiental, cultura e oportunidade para milhares de brasileiros.
Depois de olhar os planos de governo dos dois candidatos que chegaram ao segundo turno, acho importante fazer uma correção. Não dá para dizer que eles não apresentaram nada sobre turismo. Existem propostas, sim. A questão é que o setor ainda não aparece com a força e a prioridade que deveria ter em um projeto de governo para o Brasil.
No plano de Lula, o turismo aparece ligado à promoção do Brasil no exterior, ao fortalecimento das viagens dentro do próprio país e à criação de novos destinos e roteiros. O documento também fala em crédito para as empresas, valorização do patrimônio natural e cultural, turismo sustentável, reservas particulares e parques nacionais.
No plano de Flávio Bolsonaro, o foco está mais voltado para infraestrutura, segurança, integração regional e atração de investimentos privados. Entre as ideias apresentadas estão o Trem do Nordeste, a ampliação da Transnordestina e a promoção de áreas como a Amazônia e a Costa Verde.
São propostas diferentes e que precisam ser discutidas com seriedade. Uma visão dá mais destaque à sustentabilidade, à promoção dos destinos, ao crédito e à diversificação da oferta turística. A outra aposta é mais na infraestrutura, na segurança, nos grandes projetos e na participação da iniciativa privada.
O ponto principal é que nenhuma proposta pode ficar apenas no papel. O turismo precisa de planejamento, metas, orçamento e continuidade. Não adianta criar um roteiro novo se o visitante não consegue chegar. Não adianta divulgar um destino se falta saneamento, segurança, sinalização ou profissionais preparados para receber as pessoas.
O Brasil tem destinos incríveis, mas ainda precisa cuidar melhor daquilo que oferece. É preciso melhorar as estradas, os aeroportos, a conectividade aérea, a qualificação profissional e o acesso ao crédito. Também é necessário pensar na acessibilidade, na preservação ambiental e nos efeitos das mudanças climáticas sobre os destinos turísticos.
O próprio Ministério do Turismo registra aproximadamente 2,39 milhões de pessoas ocupadas formalmente no setor, o equivalente a cerca de 4,9 por cento do total de empregos. Estamos falando de trabalhadores, guias, hotéis, restaurantes, agências, transportadoras, eventos, artesãos e comunidades que dependem diretamente do turismo.
Por isso, a pergunta que eu gostaria de ver os candidatos respondendo não é apenas quantos turistas estrangeiros o Brasil pretende receber ou quantos novos roteiros serão lançados. A pergunta é outra. Qual será o lugar do turismo na estratégia econômica e social do próximo governo?
O turismo precisa conversar com as áreas de transporte, meio ambiente, cultura, relações exteriores, educação e desenvolvimento regional. Precisa ser pensado de forma integrada e não apenas como uma atribuição isolada do Ministério do Turismo.
Também precisa ouvir quem vive o dia a dia do setor. Estados, municípios, empresários, trabalhadores, universidades, comunidades tradicionais e entidades ambientais precisam participar da construção das políticas públicas.
O Brasil não tem falta de destino. Temos natureza, cultura, história, gastronomia e um povo que sabe receber. O que ainda falta é transformar tudo isso em prioridade política.
Os candidatos apresentaram algumas ideias, mas o turismo ainda não ocupou o centro da conversa eleitoral. Quem assumir a Presidência terá a responsabilidade de enxergar o setor não como um detalhe ou como um complemento de outras áreas, mas como uma das ferramentas mais importantes para gerar emprego, distribuir renda e desenvolver o país de forma mais equilibrada.
O turismo não pede favor. Pede planejamento, integração e respeito pela sua importância.
Bruno Mann é empresário e CEO da Brazil Connection Turismo Receptivo














