O túmulo de Madame Satã pode se tornar o primeiro patrimônio tombado com temática LGBTQIAP+ no Brasil. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) iniciou o processo de estudo e análise da sepultura de João Francisco dos Santos, figura lendária da Lapa e símbolo de resistência e liberdade no Rio de Janeiro.
Nascido em Glória do Goitá, Pernambuco, João Francisco se mudou para o Rio ainda criança. Na década de 1930, ganhou fama sob o nome artístico Madame Satã, inspirado em uma personagem de carnaval. Performático e destemido, tornou-se um ícone da boemia carioca, conhecido por sua força, irreverência e pelas lutas contra a repressão policial da época. Dividia o palco dos cabarés com artistas e personalidades da cena cultural do século passado, enquanto desafiava padrões de gênero e comportamento.
A trajetória de Satã foi marcada por contrastes. Entre prisões e aplausos, ele viveu por 27 anos no antigo presídio da Ilha Grande, na Costa Verde, onde permaneceu mesmo após conquistar a liberdade. Morreu em 1976, aos 76 anos, e foi sepultado na Vila do Abraão, local que agora pode se transformar em símbolo de memória e diversidade.
Em agosto, técnicos do Iphan realizaram a primeira visita ao cemitério da Ilha Grande para avaliar o processo de tombamento. O estudo, que pode durar até cinco anos, inclui inventário histórico, pareceres técnicos e participação da sociedade civil. O órgão destacou que busca reconhecer patrimônios ligados à diversidade como parte essencial da identidade cultural brasileira.
A iniciativa do pedido partiu do turismólogo Baltazar de Almeida, que se interessou pela história de Satã ao ler relatos sobre sua vida na Ilha Grande. Ele pretende criar o roteiro “Madame Satã para Sempre”, um circuito turístico que incluirá o túmulo, as ruínas do presídio, o local onde ficava sua casa e a praça onde o artista desfilava nos carnavais. O projeto une afroturismo e turismo LGBTQIAP+, áreas ainda pouco exploradas em Angra dos Reis.
A importância cultural de Madame Satã também é reconhecida por estudiosos. Para a cientista social Ariela Nascimento, a figura de Satã transcende rótulos. É arriscado tentar enquadrá-lo dentro das categorias de gênero atuais. O mais importante é entendê-lo como uma figura dissidente e libertária, que rompeu com as normas impostas de sua época, explica.
Mesmo após a vida agitada na Lapa, Satã encontrou paz na Ilha Grande. Tornou-se querido pelos moradores e famoso por suas receitas, especialmente o prato “Madame Satã”, um peixe com banana criado no restaurante de uma família amiga. Nos carnavais locais, continuou sua paixão pelas fantasias e pela alegria, desfilando vestido de noiva ou de Carmen Miranda.
Fátima Cury, guardiã do túmulo e amiga de infância, mantém viva a memória do artista. Ele foi como um protetor para mim. Tinha um temperamento forte, mas era generoso e sincero. Todo mundo gostava dele porque sabia quem ele era de verdade, lembra.
Mais do que um nome histórico, Madame Satã representa a coragem de viver com autenticidade em uma época em que isso custava caro. Se aprovado, o tombamento do seu túmulo será um marco não apenas para o patrimônio cultural, mas também para o reconhecimento da diversidade como parte fundamental da história brasileira.














