Alberto Ahmed – presidente do Jornal Povo
Vamos combinar uma coisa? Eleição não é concurso para padre. Muito menos para marido do ano.
De tempos em tempos, a política brasileira descobre uma nova obsessão: a vida amorosa dos outros. Agora, Kim Kataguiri e Garotinho ajudam a colocar no noticiário histórias de supostas traições, vídeos comprometedores e casos extraconjugais envolvendo gente da política.
É o tipo de assunto que rende clique, fofoca, grupo de WhatsApp e, dependendo do caso, até divórcio. Mas voto? Aí já é outra conversa.
Antes de tudo, vale a regra básica: acusação é acusação. Cada um que responda pelo que efetivamente fez — e, principalmente, pelo que puder ser provado.
Dito isso, existe uma diferença enorme entre ser um péssimo marido e ser um péssimo homem público. Dá até para acumular as duas funções, claro. Mas uma coisa não prova automaticamente a outra.
Quem foi traído tem todo o direito de ficar revoltado, terminar o casamento, jogar as roupas pela janela, trocar a fechadura e mandar o sujeito dormir no sofá — de preferência, bem longe.
O eleitor, porém, não está escolhendo marido.
Na urna, a pergunta deveria ser outra: administrou bem? Entregou resultado? Respeitou o dinheiro público? Trabalhou? Tem preparo para exercer o cargo? Cumpriu o que prometeu ou passou quatro anos contando história?
Porque traição conjugal é problema de casal. Já corrupção, incompetência, abandono, promessa não cumprida e dinheiro público jogado fora entram na casa de todo mundo — inclusive de quem está solteiro.
Político não precisa ser exemplo de casamento perfeito para governar. Precisa ser exemplo no trato com aquilo que pertence à população.
Se traiu a mulher ou o marido, que se entenda em casa — ou no tribunal, quando for o caso.
Se traiu o eleitor, aí sim a conversa é na urna.
E essa traição costuma sair bem mais cara.














