As denúncias envolvendo a Outsider Tours nas últimas semanas reacenderam um alerta que há muito precisava ser colocado na mesa: o mercado de turismo brasileiro continua exposto a golpes, operações de fachada e empresas que se aproveitam da boa-fé de consumidores e da falta de profissionalização de parte do trade.
A Outsider não inaugura nada. Ela apenas ganhou mais visibilidade. Quem vive o dia a dia do turismo — principalmente no Rio — sabe que há anos lidamos com operadores fantasmas, receptivos improvisados e promessas de serviços que nunca se concretizam. Para o turista, fica a frustração. Para quem trabalha sério, fica a desconfiança generalizada que mancha todo o setor.
E esse cenário infelizmente não é novidade. Ainda em 2025, tivemos o caso escandaloso da ViagensPromo, que deixou milhares de consumidores e agentes de viagem sem resposta, sem reembolso e sem solução concreta até hoje. Um episódio emblemático de como a falta de fiscalização e a corrida por preços irresistíveis podem gerar prejuízos gigantescos e abalar a credibilidade de todo o mercado.
Esses casos — Outsider, ViagensPromo e tantos outros que não chegam à imprensa — têm um ponto em comum que precisa ser dito com todas as letras: boa parte dos golpes nasce da busca incessante por preço baixo, muitas vezes sem análise mínima de idoneidade.
Agentes e operadores, pressionados por margens cada vez menores, acabam apostando no fornecedor mais barato sem verificar o básico: CNPJ regular, alvará, frota legalizada, emissão correta de nota fiscal, histórico no mercado, reputação e cumprimento de contratos.
É nesse descuido que os golpistas encontram terreno fértil.
Preço baixo não é sinônimo de eficiência. Muitas vezes, é sinônimo de risco real.
Por isso, é fundamental reforçar:
– Agentes e operadores têm responsabilidade direta na escolha dos seus fornecedores.
– A checagem de idoneidade precisa ser prática obrigatória.
– O “barato demais” deve ser tratado como alerta vermelho.
– Parcerias devem ser firmadas com base em transparência e histórico — nunca apenas no valor do WhatsApp.
Enquanto isso, o poder público segue sendo reativo, não preventivo. E, sem fiscalização efetiva, empresas sérias perdem espaço para aventureiros que operam à margem da lei.
O turismo do Rio de Janeiro vive um momento excepcional, com fluxo internacional crescente e projeções animadoras. Justamente por isso, permitir que empresas duvidosas circulem livremente no mercado é um risco que compromete não apenas a experiência do visitante, mas a reputação de toda a cadeia produtiva.
O caso Outsider Tours — somado ao ainda insolúvel caso ViagensPromo — expõe um setor que precisa evoluir em profissionalização, regulação e responsabilidade compartilhada. Golpes não podem mais ser tratados como episódios isolados. São sintomas de um problema estrutural e crescente.
E a solução passa por maturidade, rigor e coragem de encarar a verdade:
no turismo, confiança é o maior produto que entregamos. E não podemos permitir que ela seja sequestrada por oportunistas.
Bruno Mann é empresário e CEO da Brazil Connection Turismo Receptivo
*Este artigo reflete exclusivamente a opinião do autor. O conteúdo não representa, obrigatoriamente, a linha editorial do Jornal O Povo na Rua.














