Quadrilhas usam método de cirurgia craniana para desviar petróleo em dutos do Rio, segundo investigações da Polícia Civil e monitoramento da Transpetro. O crime, considerado altamente sofisticado, utiliza equipamentos avaliados em mais de R$ 300 mil para perfurar oleodutos e extrair combustíveis como gasolina, diesel e biocombustíveis.
A técnica aplicada é a trepanação, originalmente usada em procedimentos intracranianos. De acordo com Carlo Faccio, diretor executivo do Instituto Combustível Legal, o método permite perfurar as tubulações sem causar grandes alterações de pressão, dificultando a detecção imediata do desvio. “Eles inserem uma sonda e retiram o produto como se estivessem sangrando o duto. É uma engenharia criminosa muito elaborada”, explicou.
Embora os registros tenham diminuído em relação a anos anteriores — em 2018 foram identificados 261 casos em São Paulo e no Rio — o risco permanece elevado. O delegado Pedro Brasil, titular da Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD), alerta para as consequências: “Cada perfuração clandestina pode gerar vazamentos, contaminação do solo e de cursos d’água, além de explosões capazes de atingir comunidades inteiras. É uma ameaça à vida e à segurança energética do país”, disse.
O perigo não é apenas teórico. Em 2019, a menina Ana Cristina Pacheco, de 8 anos, morreu após cair em uma poça de gasolina aquecida por vazamento em Duque de Caxias, provocado por tentativa de furto em duto da Petrobras. Além dos riscos humanos, o crime movimenta receptadores ligados a setores de asfalto, combustíveis e fertilizantes, que compram o material por preços abaixo do mercado.
Para combater a prática, a Transpetro criou um centro de controle que monitora a rede 24 horas por dia, acionando equipes técnicas e drones em caso de suspeita. A Polícia Civil também intensificou operações neste ano: em fevereiro, um dos alvos foi o bicheiro Vinicius Drummond, acusado de fornecer veículos, e em julho, a ação mirou Mauro Pereira Gabry, investigado desde 2017 e atualmente foragido.
No Congresso, um projeto de lei aprovado na Câmara prevê penas mais duras para furtos e receptação de combustíveis. Apesar disso, muitos criminosos ainda conseguem responder em liberdade, o que favorece a reincidência. Para as autoridades, a sofisticação do esquema e a divisão de tarefas entre técnicos, transportadores e compradores tornam o combate ao furto de petróleo um dos maiores desafios de segurança e economia no estado.














