Programa de despoluição promete devolver vida à Praia da Bica após 40 anos de poluição

Praia da Bica

A Praia da Bica pode voltar a receber banhistas após mais de quatro décadas de poluição. O programa de despoluição que revitalizou a Praia do Flamengo, na Zona Sul do Rio, será expandido para o trecho da Ilha do Governador, na Zona Norte. A expectativa é que, até o verão de 2027, o mar volte a ser próprio para banho, marcando a recuperação de uma das áreas mais simbólicas da Baía de Guanabara.

O projeto também beneficiará as praias da Guanabara e da Engenhoca, e traz esperança a moradores que cresceram frequentando a orla. A aposentada Cláudia Simões, moradora da Ilha há 61 anos, lembra com nostalgia dos tempos em que a região era ponto de encontro das famílias. “Moro a vida inteira na Ilha e sei como é bom ter uma praia limpa perto de casa. Aprendi a nadar na Bica. Não pude ensinar meus filhos, mas espero levar meu neto para o mar”, contou emocionada.

A enfermeira Cátia do Amaral, que vive há duas décadas no bairro, também demonstra otimismo, mas mantém cautela. “Os antigos contam que já foi possível nadar aqui. Seria incrível, mas ainda tenho dúvidas”, afirmou. A revitalização da Praia da Bica faz parte de um plano maior conduzido pela concessionária Águas do Rio, responsável por obras de saneamento e modernização da Estação de Tratamento da Ilha do Governador (Etig).

Segundo Sinval Andrade, diretor institucional da empresa, o objetivo é eliminar o despejo de esgoto irregular na baía e dobrar a capacidade da estação, inaugurada em 1969. “Dividimos nosso plano em duas frentes: coletar todo o esgoto que era despejado indevidamente, por meio do sistema de coleta em tempo seco, e ampliar a capacidade de tratamento da Etig”, explicou. A meta é que a estação chegue a tratar até 440 litros por segundo.

Desde 2023, a Águas do Rio vem promovendo reformas estruturais no sistema de saneamento da Ilha. Foram desativadas 249 ligações clandestinas e realizadas mais de duas mil desobstruções. Também estão sendo criados cinco novos pontos de coleta na Praia de São Bento, na Portuguesa, no Corredor Esportivo e no Jardim Guanabara. Com isso, cerca de 4,9 milhões de litros de esgoto deixarão de ser lançados na Baía de Guanabara diariamente — o equivalente a duas piscinas olímpicas por dia.

O investimento total é de R$ 11,4 milhões, e, segundo Fábio Dias, diretor-executivo da concessionária, a projeção é otimista. “Até o fim de 2026, as três praias devem ficar próprias para banho”, afirmou. Dados do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) reforçam essa tendência: entre janeiro e setembro de 2025, a Praia da Bica foi considerada própria para banho em 40% das análises — quase o dobro do registrado no ano anterior.

Especialistas apontam que a localização da Praia da Bica é estratégica. O oceanógrafo Luciano Neves, da Unirio, explica que o local está voltado para o canal principal da Baía de Guanabara, que recebe constantemente água oceânica de melhor qualidade. “Essa posição privilegiada facilita a renovação da água e pode fazer da Bica a primeira praia da Ilha a recuperar condições de balneabilidade”, explicou.

Mesmo assim, Neves alerta que a recuperação precisa ser contínua e acompanhada por ações de saneamento em toda a bacia hidrográfica. O ambientalista Sérgio Ricardo Barros, do Movimento Baía Viva, reforça o ponto. “Não acredito em despoluição isolada. É preciso tratar os rios Jequiá, Meriti, Sarapuí e Iguaçu, que deságuam na região da Ilha. A recuperação depende de um esforço coletivo”, afirmou.

Além de devolver o lazer aos moradores, a recuperação da Praia da Bica representa uma vitória ambiental. O biólogo Ricardo Gomes, do Instituto Mar Aberto, destaca que a melhora da qualidade da água favorece a fauna marinha. “Tartarugas, peixes e camarões voltam a prosperar, e o ecossistema começa a se equilibrar novamente”, explicou.

Com obras em andamento e dados promissores de balneabilidade, a Ilha do Governador vive um novo momento de esperança. Se o cronograma for cumprido, o verão de 2027 poderá marcar o reencontro dos moradores com o mar — e o início de uma nova fase para a Praia da Bica, símbolo de uma cidade que tenta se reconciliar com suas águas.

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