Poze do Rodo é preso e polícia fala em ‘narcocultura’; especialistas rebatem

MC Poze do Rodo Preso

O funkeiro Marlon Brendon Coelho Couto da Silva, mais conhecido como Poze do Rodo, foi preso nesta quinta-feira (29) durante uma operação da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), da Polícia Civil. O artista foi detido em sua residência, localizada em um condomínio de luxo no Recreio dos Bandeirantes, Zona Oeste do Rio. A Justiça determinou a manutenção de sua prisão temporária por 30 dias após audiência de custódia.

De acordo com apuração e matéria de Jéssica Marques e Carmélio Dias, do jornal Extra, Poze do Rodo é investigado por tráfico de drogas, associação ao tráfico e apologia ao crime. Para a Polícia Civil, as letras e os shows do cantor seriam instrumentos de exaltação à facção Comando Vermelho, configurando o que as autoridades chamaram de “narcocultura”.

Segundo o secretário de Polícia Civil, delegado Felipe Curi, a música de Poze serve como propaganda para o crime organizado. “Ele transformou a música num instrumento de dominação, divulgação e disseminação da ideologia e da narcocultura da facção criminosa Comando Vermelho”, afirmou Curi em entrevista coletiva.

A polícia alega que o cantor se apresenta apenas em comunidades controladas pela facção e que esses eventos contam com presença ostensiva de traficantes armados, funcionando como palcos de ostentação do poder paralelo. Um dos exemplos citados foi um baile na Cidade de Deus, dias antes da morte de um policial da Core, que teria movimentado cerca de R$ 600 mil.

Também segundo a reportagem do Extra, a operação mirou empresários e gravadoras que estariam envolvidos com a estrutura de apoio financeiro do tráfico. A suspeita é que lucros de bailes funk estejam sendo usados para financiar armas, barricadas e jogos ilegais, como casas de aposta e o chamado “jogo do tigrinho”.

Entre os citados na investigação estão artistas como Oruam, Cabelinho e Orochi — este último, sócio da gravadora Mainstreet, também mencionada pela polícia. Itens como celulares, computadores, joias com símbolos de facções e até um carro BMW foram apreendidos.

A defesa de Poze do Rodo, representada pelo advogado Fernando Henrique Cardoso Neves, declarou que a prisão foi baseada em provas limitadas e que as músicas do cantor não devem ser vistas como confissão de crime, mas sim como “peças de ficção”. Segundo ele, as investigações seguem em sigilo, e a equipe aguarda acesso completo aos autos para se manifestar de forma mais contundente.

Artistas como Oruam, MC Cabelinho e Orochi saíram publicamente em defesa de Poze do Rodo. “O estado gosta de envergonhar nós”, disse Oruam em vídeo, ao criticar a condução do cantor pela polícia. Cabelinho também se pronunciou nas redes sociais, ressaltando que “quando um roteirista escreve a vida de um traficante é arte, mas quando um funkeiro relata a realidade da favela é apologia ao crime”.

A gravadora Mainstreet, por meio de Orochi, negou qualquer associação com o tráfico. “Não existe lavagem de dinheiro do crime, não existe associação ao crime na Mainstreet. Liberdade para Poze do Rodo”, declarou o rapper.

A antropóloga Mylene Mizrahi, da PUC-Rio, ponderou que as letras do funk não devem ser interpretadas literalmente. “Eles falam da realidade, mas isso não significa que estejam praticando crimes”, explicou. Já a escritora Michele Miranda destacou que o funk sempre enfrentou tentativas de criminalização desde os anos 90, quando foi relacionado aos arrastões nas praias do Rio.

A prisão de Poze reacende o debate sobre a fronteira entre liberdade artística e responsabilidade criminal, além de expor o preconceito social que ainda recai sobre manifestações culturais periféricas.

Limpatech