Analisando material fóssil de 1.048 indivíduos provenientes de três sítios arqueológicos sudaneses, uma equipe norte americana, liderada pela arqueóloga Anne Austin, identificou tatuagens preservadas nas peles de 27 elementos o que representa quase o dobro dos casos conhecidos nesta região, às margens do Rio Nilo.
A pesquisa demonstra que nesta região há cerca de 1400 anos viviam comunidades que marcavam o rosto permanentemente com tatuagens, inclusive de crianças, algumas com apenas 18 meses de idade. O costume, raro no registro arqueológico mundial, só foi possível graças ao estudo sistemático de mais de mil restos humanos identificados possivelmente ligada à fé cristã, à proteção espiritual e até a cuidados de saúde infantil. O sítio que mais chamou a atenção dos arqueólogos foi Kulubnarti, um assentamento cristão entre aproximadamente 650 e 1000 d.C.
– Mais surpreendente do que a frequência foi a distribuição das marcas. Enquanto tatuagens antigas costumam aparecer em adultos e em partes do corpo menos visíveis, como tronco e membros, em Kulubnarti a maioria estava no rosto: testa, têmporas, bochechas e sobrancelhas. Apenas duas pessoas tinham tatuagens nas costas. Ali, dois cemitérios foram utilizados por séculos, e pelo menos 19% dos indivíduos analisados apresentavam sinais de tatuagem, uma proporção excepcionalmente alta para padrões arqueológicos – destaca a Anne Austin, da Universidade de Missouri–St. Louis, USA.
Os pesquisadores acreditam que a questão lança uma nova luz sobre as transformações religiosas, culturais e sociais da antiga Núbia durante a expansão do cristianismo na região. E o contexto histórico é crucial para entender o fenômeno.
A prática das tatuagens em Kulubnarti coincide com a consolidação do cristianismo na Núbia, que adotou oficialmente a nova religião entre os séculos 6 e 7. A tatuagem mais recorrente possuía quatro pontos dispostos em forma de losango no centro da testa o que pode representar uma cruz estilizada. Ao contrário do esperado, a maior parte dos indivíduos tatuados eram crianças com menos de 11 anos
– Se as tatuagens fossem um símbolo da fé cristã de quem as usava, então poderia ter sido importante para os pais criar maneiras permanentes de marcar seus filhos como cristãos. As tatuagens faciais poderiam funcionar como uma espécie de batismo permanente, visível a toda a comunidade e impossível de ser removido – afirma Anne Austin
Fonte: revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS)














