A Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro interditou, nesta quarta-feira, todos os centros cirúrgicos do Grupo de Saúde Celita Toledo, em Laranjeiras, na Zona Sul da capital. O local é investigado por três mortes e mais de 25 denúncias de pacientes com sequelas graves.
Operação da Polícia Civil bloqueia salas cirúrgicas após mortes de pacientes
A ação foi deflagrada pela Delegacia do Consumidor, conhecida como Decon, durante o cumprimento de mandados judiciais de busca e apreensão no endereço da Rua Soares Cabral. A investida faz parte da chamada Operação Por Elas. Segundo os investigadores da unidade especializada, a rede privada acumulava dezenas de relatos estarrecedores de pacientes com necrose, feridas abertas por meses e deformidades permanentes no corpo.
A paralisação das atividades ocorreu em um dia de intenso movimento no endereço. De acordo com informações policiais, pelo menos 15 cirurgias plásticas estavam agendadas para serem feitas somente nesta quarta-feira. Os procedimentos foram sumariamente cancelados com a chegada dos agentes, evitando que novos pacientes entrassem na mesa de operação.
Em agosto deste ano, o mesmo endereço já havia sido alvo de fiscalização dos policiais civis. Na ocasião anterior, as equipes apreenderam diversos lotes de remédios e materiais hospitalares com prazo de validade vencido. O dono do Laranjeiras Plastic Day Hospital, identificado como Adriano da Silva Nascimento, chegou a ser preso em flagrante naquela data, mas deixou a prisão após pagar uma fiança fixada pela Justiça no valor de R$ 10 mil reais.
O que já se sabe sobre as mortes investigadas
Os inquéritos em andamento na delegacia detalham a trágica trajetória de mulheres que buscaram intervenções estéticas com a promessa de procedimentos acessíveis. Um dos casos envolve Jéssica Conceição da Cruz, de 34 anos. A paciente pagou R$ 12,8 mil reais para fazer lipoaspiração, abdominoplastia e remodelamento costal no dia 14 de julho.
Pouco tempo depois da liberação médica, Jéssica apresentou febre alta e dores insuportáveis no abdômen. Ela precisou ser internada novamente às pressas e passou por várias cirurgias de emergência. A mulher não resistiu e faleceu em 19 de setembro. A certidão de óbito apontou peritonite fecal provocada por uma perfuração no intestino.
Outro caso sob apuração formal é o de Isabely Viana, de 42 anos, submetida a uma abdominoplastia em 12 de junho. Durante o procedimento, ela teve uma parada cardiorrespiratória repentina com queda severa dos sinais vitais. A paciente ficou internada cinco dias no Centro de Terapia Intensiva, o CTI, mas faleceu no dia 17 de junho.
Médicos estrangeiros e relatos de mutilações
Além das três mortes já confirmadas no radar da polícia, mais de 25 relatos de sequelas permanentes chegaram à delegacia. A psicanalista Daiana Maurina Dias relatou ter economizado dinheiro durante 17 anos para realizar uma operação na região abdominal. Ela desembolsou R$ 16 mil reais no local por uma lipoescultura, intervenção nos glúteos e abdômen.
Após o procedimento cirúrgico, Daiana sofreu sangramentos contínuos e fraqueza severa. A área operada desenvolveu um quadro de necrose. Mesmo após tentativas de reparação na clínica, ela ficou com graves alterações estéticas, dores contínuas e uma hérnia umbilical.
A Delegacia do Consumidor também abriu uma linha de apuração para checar a presença irregular de médicos estrangeiros atuando no centro médico. A suspeita é que profissionais formados fora do país vinham ao Rio de Janeiro com a justificativa de fazer cursos de pós-graduação e acabavam operando pacientes sem o registro e a qualificação devida.
Quem responde pelo local interditado
A estrutura de atendimento no bairro de Laranjeiras integra um complexo formado por diferentes nomes jurídicos. O local abriga a Clínica Celita Toledo, voltada a atendimentos ambulatoriais e consultas prévias, o Laranjeiras Plastic Day Hospital, onde ocorriam as intervenções, além do Hospital Ênio Serra.
Todos os centros cirúrgicos das unidades citadas estão proibidos de funcionar enquanto durarem as apurações judiciais e as restrições sanitárias. A direção do estabelecimento ainda não se manifestou oficialmente sobre a ação recente deflagrada pelos policiais.
O que fazer se você foi vítima
Quem realizou procedimentos na rede e sofreu sequelas, mutilações ou problemas médicos graves deve procurar a Polícia Civil para registrar a ocorrência. O boletim pode ser formalizado diretamente na sede da Delegacia do Consumidor, na Cidade da Polícia, situada na Rua Armênia, número 400, no bairro do Jacaré, na Zona Norte.
Para registrar o caso, a vítima deve levar cópias do contrato assinado, comprovantes de pagamento bancário, prontuários, receitas médicas, fotos das lesões e laudos de hospitais onde recebeu socorro. Se preferir atendimento inicial sem sair de casa, o cidadão pode fazer a queixa pelo portal oficial da Delegacia Eletrônica da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro.
Como denunciar irregularidades em clínicas
A população pode repassar informações sobre médicos sem registro, clínicas clandestinas ou locais com alvarás vencidos por meio dos canais oficiais do Disque Denúncia. O atendimento ocorre pelo telefone (21) 2253-1177, com funcionamento 24 horas por dia e garantia total de anonimato.
Casos de exercício ilegal da medicina e más condições higiênicas também podem ser comunicados formalmente ao Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro, o Cremerj, e à Vigilância Sanitária municipal pelo telefone 1746.















