PCC e CV rompem trégua e voltam a declarar guerra no Brasil

Sigla do Comando Vermelho

As facções criminosas PCC e CV romperam oficialmente a trégua anunciada em fevereiro deste ano. A aliança, que tinha como objetivo cessar confrontos, reduzir custos com guerras e garantir a continuidade dos negócios ilegais, não resistiu às rixas regionais e interesses territoriais. A informação foi confirmada pelo Ministério Público de São Paulo ao jornal EXTRA, que teve acesso a comunicados internos das organizações, conhecidos como “salves”.

Segundo autoridades envolvidas nas investigações, as divergências locais inviabilizaram o acordo costurado pelas lideranças presas. Desta vez, ao contrário da trégua, os comunicados do rompimento foram emitidos de forma separada por cada facção.

O PCC afirmou que o objetivo inicial da aliança era diminuir o número de homicídios, o que prejudicava os negócios, mas destacou que o acordo foi encerrado por “questões que ferem a ética do crime”, conforme consta em um dos novos salves obtidos pela reportagem.

Já o Comando Vermelho, em seu comunicado interno, alertou seus integrantes sobre os riscos de homicídios de inocentes, mencionando recentes casos de assassinatos de jovens que fizeram gestos de mão associados às facções, como o símbolo dos três dedos (PCC) ou o “V” de vitória (CV).

O rompimento entre PCC e CV foi confirmado também ao jornal O GLOBO pelo promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de Presidente Prudente. Jurado de morte pelo PCC e referência nacional no combate ao crime organizado, Gakiya destacou:
“Acho que isso era até esperado. Não imaginava que [a trégua] fosse perdurar. A informação que tive conhecimento, já há algum tempo, é de que o Marcinho VP [principal líder do CV] não teria dado aval para essa trégua. E o aval dele seria indispensável. Isso pode ter levado a esse rompimento”, afirmou Gakiya, em depoimento ao jornal O GLOBO.

Como mostrou o jornal, Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, negou veementemente a existência da trégua em relatório da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), datado de 22 de fevereiro. Ao ser informado pelas defesas sobre notícias de um armistício, Marcinho classificou as informações como “fake news” e declarou que mantém uma postura de respeito ao PCC apenas em razão da convivência no sistema prisional, mas que as facções seguem como inimigas.

O promotor Lincoln Gakiya também atribui o fim do acordo às diferenças de organização entre as duas facções. Enquanto o PCC tem uma direção nacional rígida e estados subordinados à liderança central, o CV atua de maneira descentralizada, funcionando como uma rede de franquias, com líderes regionais detendo maior autonomia. Segundo ele:
“Em suma, interesses territoriais de disputa por tráfico é o que leva a esse rompimento. Porque ninguém quer abrir mão do seu espaço”, afirmou Gakiya, em entrevista ao jornal O GLOBO.

O rompimento ocorre após sinais concretos de uma tentativa de armistício. Em fevereiro, relatórios da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo apontavam que nove estados brasileiros — incluindo Minas Gerais, Amazonas e Ceará — haviam identificado evidências de trégua entre as facções. Outros estados, como São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraíba, sustentavam que a rivalidade permanecia.

As autoridades de segurança apontam que os estados do Norte e Nordeste concentravam a maioria dos relatos de tentativa de aliança, enquanto o Sudeste e o Sul mantinham sinais de conflito entre as facções.

A ruptura entre PCC e CV reacende o alerta das forças de segurança pública, que agora preveem o aumento da violência em territórios disputados. Conflitos armados, assassinatos e aumento do tráfico de drogas em regiões estratégicas são algumas das consequências esperadas pelas autoridades.

A situação seguirá sendo monitorada pelas inteligências estaduais e federais, que pretendem reforçar as operações de segurança em áreas consideradas de risco.

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