Prefeito interino e candidato à eleição suplementar de 25 de outubro, Haroldinho está à frente de uma administração que acumula contratos de centenas de milhões de reais, segundo levantamento baseado em registros públicos
A poucos dias da eleição suplementar que definirá o próximo prefeito de Itaguaí, na Região Metropolitana do Rio, a gestão de Haroldo Rodrigues Jesus Neto, conhecido como Haroldinho, está no centro de questionamentos sobre contratos públicos, despesas com eventos, contratações emergenciais e decisões políticas.
Haroldinho permanece no comando da Prefeitura de Itaguaí como prefeito interino e disputa, pelo PDT, a eleição marcada para 25 de outubro de 2026. O pleito foi convocado após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmar o indeferimento da candidatura de Rubem Vieira de Souza, o Dr. Rubão, eleito em 2024. Quem vencer a nova votação cumprirá mandato até 31 de dezembro de 2028.
É nesse contexto que um dossiê elaborado com base em documentos públicos reúne oito episódios relacionados aos períodos em que Haroldinho esteve à frente do Executivo municipal. Segundo o levantamento, os registros do Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) somam aproximadamente R$ 447 milhões em contratos assinados ao longo de 15 meses de gestão interina.
Os documentos apontam despesas expressivas com serviços de saúde, limpeza urbana, locação de máquinas, estruturas para eventos e apresentações artísticas. Também levantam dúvidas sobre contratações realizadas em momentos politicamente relevantes, incluindo a data da posse do prefeito interino e o período que antecede a eleição suplementar.
Os registros não comprovam, por si só, a ocorrência de irregularidades. No entanto, os valores envolvidos e as circunstâncias de determinadas contratações justificam questionamentos sobre planejamento, transparência, fiscalização e aplicação dos recursos públicos.
R$ 447 milhões em contratos durante a gestão interina
De acordo com o levantamento, a Prefeitura de Itaguaí registrou 319 contratos nos dois períodos em que Haroldinho assumiu interinamente o Executivo municipal: de janeiro a junho de 2025 e de novembro de 2025 a outubro de 2026.
Entre os contratos de maior valor estão serviços de limpeza urbana, gerenciamento de serviços de saúde, locação de máquinas e equipamentos e terceirização de mão de obra.
Em junho de 2025, quando reassumiu o cargo, Rubão declarou, segundo o dossiê, que a gestão interina havia comprometido em menos de seis meses o orçamento de um ano inteiro. Na ocasião, determinou uma auditoria dos contratos.
O volume financeiro registrado no PNCP, entretanto, precisa ser analisado considerando a natureza de cada contrato, seu prazo de vigência e o montante efetivamente executado. Valores contratados não correspondem necessariamente a valores já pagos.
A questão central é saber quais serviços foram efetivamente prestados, quais despesas foram liquidadas e pagas e como a prefeitura fiscaliza os compromissos assumidos.
Contrato de R$ 31,5 milhões prevê locação de caminhões e máquinas
Em 26 de fevereiro de 2025, pouco menos de dois meses após assumir a prefeitura, a gestão de Haroldinho firmou o contrato nº 034/2025 com a União Cooperativa de Transportes, de Belo Horizonte, no valor de R$ 31,5 milhões.
O objeto era a locação de caminhões e máquinas, com vigência prevista de 12 meses. Segundo o dossiê, a contratação ocorreu por adesão a uma ata de registro de preços do Consórcio Intermunicipal Multifinalitário dos Municípios do Extremo Sul de Minas Gerais (Cimesmi), em vez de uma licitação própria do município.
O levantamento também aponta que duas notas de empenho de R$ 2 milhões cada foram emitidas no início da contratação.
Um dos questionamentos diz respeito à fiscalização do serviço: conforme a análise apresentada no dossiê, o contrato prevê cobrança por hora trabalhada, mas não informa a quantidade de caminhões a ser disponibilizada.
Em março de 2026, já no segundo período de gestão interina, a prefeitura assinou outro contrato para locação de máquinas e equipamentos, desta vez com a Saga Construtora, no valor de R$ 27,4 milhões.
A adesão a uma ata de registro de preços é um instrumento previsto na legislação, desde que cumpridos os requisitos legais. O que precisa ser esclarecido é se as contratações atenderam ao interesse público, se os preços eram vantajosos e quais mecanismos foram utilizados para comprovar a execução dos serviços.
R$ 19,9 milhões para estruturas de eventos e adiamento da Expo Itaguaí
Outro contrato destacado no dossiê foi homologado em 11 de junho de 2025, nove dias antes do afastamento de Haroldinho do comando da prefeitura naquele período.
O acordo, no valor de R$ 19,9 milhões, previa a locação de estruturas, lonas, palco, equipamentos de som e iluminação. A contratação foi realizada por dispensa de licitação, mediante adesão a uma ata vinculada ao Consórcio Nacional de Saneamento Básico (Consane).
A dimensão do contrato chama atenção também pelo contexto em que foi firmado. Os cachês dos artistas da Expo Itaguaí 2025 foram contratados entre os dias 2 e 12 de junho, mas a festa acabou adiada.
Segundo informações divulgadas à época, o não pagamento do sinal exigido pelos artistas contribuiu para a decisão. O dossiê aponta que os valores estavam empenhados, mas os pagamentos antecipados não haviam sido realizados.
O episódio levanta dúvidas sobre o planejamento financeiro da programação: por que a prefeitura assumiu compromissos milionários com estruturas e apresentações sem garantir previamente as condições necessárias para a realização do evento?
A resposta depende da análise dos contratos, dos empenhos, dos pagamentos realizados e das justificativas administrativas para o adiamento.
R$ 14,4 milhões em apresentações artísticas
Os gastos com shows também integram o levantamento. Segundo os registros compilados no PNCP, as contratações de apresentações artísticas nos dois períodos de gestão interina somam aproximadamente R$ 14,4 milhões.
O dossiê destaca 49 contratos de apresentações artísticas registrados entre novembro de 2025 e outubro de 2026, com valor acumulado de aproximadamente R$ 12,15 milhões. O levantamento também aponta R$ 2,2 milhões em cachês relacionados à Expo Itaguaí de 2025.
Entre os contratos listados estão apresentações de artistas conhecidos nacionalmente, com cachês que chegam a centenas de milhares de reais. Além disso, a prefeitura contratou estruturas para eventos e painéis de LED, incluindo um contrato de aproximadamente R$ 2,6 milhões.
Outro ponto levantado envolve a empresa Pink Shows & Eventos, que aparece em 17 registros contratuais, totalizando R$ 804 mil. De acordo com o dossiê, há contratos de R$ 20 mil assinados na mesma data e outros firmados em dias próximos.
A existência de contratos separados não comprova, isoladamente, irregularidade. É necessário verificar os objetos, os serviços contratados, os artistas envolvidos e as justificativas para a formalização dos acordos.
Ainda assim, a repetição de contratações com valores semelhantes merece esclarecimentos, sobretudo diante da necessidade de demonstrar a economicidade dos gastos e os resultados entregues à população.
Contrato de R$ 36,7 milhões registrado no dia da posse
Em 27 de novembro de 2025, data em que Haroldinho tomou posse como prefeito interino pela segunda vez, o PNCP registra o contrato nº 252/2025, firmado com a Siglock Serviços Médicos, no valor de R$ 36,7 milhões.
O objeto é o gerenciamento e a operacionalização de serviços de saúde. Segundo o levantamento, trata-se de um dos maiores contratos identificados nos dois períodos de gestão interina.
A coincidência entre a data da posse e a assinatura registrada no portal torna necessário esclarecer quais procedimentos antecederam a contratação, quem assinou o documento e quais serviços foram abrangidos pelo acordo.
O dossiê também menciona contratações emergenciais posteriores, incluindo serviços terceirizados de limpeza e outros serviços continuados, além de um novo contrato de gestão em saúde registrado em fevereiro de 2026.
Por envolver uma área essencial e valores expressivos, o conjunto de contratos merece uma análise detalhada sobre a justificativa das contratações, a execução dos serviços e a fiscalização dos pagamentos.
Fonte da notícia: Jornal Panorama













