A Polícia Civil e o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro fizeram uma grande ação nesta quinta-feira contra um esquema suspeito de fraudar reformas em colégios estaduais, bloqueando R$ 19 milhões em bens dos investigados.
A ofensiva, batizada de Operação Escola de Papel, cumpriu 19 mandados de busca e apreensão em endereços da capital, Niterói, Arraial do Cabo e Cabo Frio, mirando desvios que deixaram colégios públicos sem os reparos prometidos.
Esquema usava regras de obras rápidas para burlar licitações
Segundo a investigação conjunta da Polícia Civil e do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), um modelo que deveria servir apenas para consertos urgentes e pequenos reparos foi usado para fechar contratos caros sem licitação. As empresas escolhidas cobravam valores acima da tabela real de serviços e tinham ligações entre si, combinando os preços antes da entrega das propostas para fingir que havia concorrência.
Os repasses do governo saíam da Secretaria de Estado de Educação (Seeduc) diretamente para as Associações de Apoio às Escolas (AAEs). Essas entidades comunitárias, responsáveis por gerir o dinheiro das unidades escolares, faziam os pagamentos finais para as firmas investigadas. O dinheiro que deveria virar telhado novo, fiação segura e salas de aula ventiladas para milhares de estudantes acabava drenado em saques e compras de luxo.
Entre os alvos das buscas estão a ex-secretária de Educação Roberta Barreto de Oliveira, o genro dela Yurie Lopes Fonseca Ormonde André, o ex-subsecretário de Gestão Administrativa David de Andrade Marinho Filho e Fabio Martins Pereira, apontado pela polícia como operador financeiro da quadrilha. A Justiça autorizou o bloqueio de até R$ 19 milhões nas contas e propriedades dos suspeitos.
Flagrante em Duque de Caxias revelou mala de dinheiro
O rastro do dinheiro começou a aparecer com clareza em janeiro deste ano, na Baixada Fluminense. Policiais abordaram um veículo logo após a saída de uma agência bancária em Duque de Caxias e flagraram R$ 500 mil em espécie guardados dentro de uma sacola plástica, transportada em uma caminhonete escoltada por um policial militar armado.
O homem que havia sacado o valor era administrador de uma das empresas terceirizadas pela Educação. Em depoimento formal, ele admitiu que sua firma recebeu cerca de R$ 6 milhões para executar aproximadamente 15 reformas. Do total, apenas R$ 2 milhões foram realmente gastos com tijolos, tintas e mão de obra nas escolas, enquanto R$ 4 milhões acabaram entregues a intermediários do esquema criminoso.
Alertas emitidos pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) mostraram que apenas uma das empresas envolvidas movimentou assustadores R$ 19,8 milhões em verbas públicas durante o ano de 2025. O dinheiro público alimentava a compra de imóveis caros, como uma mansão em Cabo Frio e uma residência de R$ 2 milhões em Camboinhas, Niterói. Um único investigado acumulou um patrimônio de R$ 32,2 milhões e controlava frotas com 60 veículos.
O que já se sabe
A investigação aponta que a fraude atingiu unidades escolares espalhadas por diversas cidades do estado, prejudicando a rotina de alunos e professores que enfrentavam instalações precárias enquanto as verbas sumiam.
- Mandados cumpridos: 19 ordens judiciais de busca e apreensão executadas no Rio de Janeiro, Niterói, Cabo Frio e Arraial do Cabo.
- Bloqueio de patrimônio: R$ 19 milhões em contas bancárias e bens imóveis arrestados por ordem judicial.
- Origem do rombo: Contratações diretas sem licitação por meio das Associações de Apoio às Escolas.
- Bens de luxo rastreados: Imóveis na Região dos Lagos, casa de alto padrão em Camboinhas e dezenas de veículos registrados em nomes ligados aos operadores.
A defesa dos citados na apuração policial ainda não se pronunciou publicamente sobre as medidas cautelares autorizadas pela Justiça.
Quem responde por isso
O caso está sob responsabilidade direta de delegacias especializadas da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro em conjunto com promotores do Ministério Público estadual. A apuração tenta descobrir se servidores de escalões inferiores também recebiam propina para atestar obras malfeitas ou sequer iniciadas.
A Secretaria de Estado de Educação (Seeduc) informou que colabora integralmente com as autoridades de controle e que os mecanismos de fiscalização sobre os repasses das Associações de Apoio às Escolas estão sendo revistos para coibir fraudes na contratação de serviços essenciais.
Como denunciar
Moradores, pais de alunos, professores e funcionários que notarem irregularidades em obras escolares, abandono de reformas ou suspeitas de corrupção podem fazer denúncias anônimas pelos canais oficiais do estado:
- Disque Denúncia: Telefone (21) 2253-1177, com atendimento anônimo disponível durante 24 horas por dia, todos os dias da semana.
- Ouvidoria do MPRJ: Atendimento telefônico gratuito pelo número 127 ou formulário online no portal oficial do Ministério Público fluminense.
- Ouvidoria Geral do Estado: Pelo telefone 0800-282-2252, para registrar reclamações e denúncias sobre serviços e contratos de órgãos do governo estadual.















