O ENTERRO ANUNCIADO DO ESTADO: DO CEPERJ ÀS PRÓXIMAS ALGEMAS

Por Victor Travancas

 

O julgamento do Tribunal Superior Eleitoral sobre o escândalo do Ceperj não é surpresa. É necropsia.

O cadáver estava no chão há muito tempo. Eu apontei o corpo. Mostrei as fraturas. Indiquei a causa provável da morte administrativa. Mas preferiram maquiar o defunto.

Quando exerci a função de subsecretário de compliance, fiz o que a técnica exige: alertei. Documentei. Fundamentei. Escrevi. Falei. Reiterei.

Disse, com todas as letras, que contratações massivas, sem transparência efetiva, com arquitetura frágil de controle, produziriam exatamente o que hoje está sendo julgado: abuso, desvio e, possivelmente, inelegibilidade.

A resposta? Vaidade. Soberba. Silêncio institucional.

Agora assistimos ao espetáculo da surpresa fingida.

Autoridades com ar consternado perguntam “como isso aconteceu?”.

Aconteceu porque ignoraram os alertas. Porque confundiram poder com imunidade. Porque trataram controle como inconveniência.

E o mais grave: o modelo não morreu.

O mesmo desenho administrativo — o mesmo roteiro perigoso — reaparece no programa Segurança Presente, vinculado à Secretaria de Governo do Estado do Rio de Janeiro. A mesma lógica. A mesma fragilidade estrutural. A mesma aposta irresponsável de que ninguém perceberá.

Perceberão.

E ainda, o mesmo modus operandi se repete na Faetec e na Faperj. Que são a extensão do crime do Ceperj.

A Faetec, que deveria ser um templo de formação técnica, tornou-se caricatura administrativa. Gestão sem densidade intelectual é convite ao desastre. Educação não é cabide de favores.

A Faperj, outrora vitrine da produção científica fluminense, transformou-se em constrangimento acadêmico.

Instituições de pesquisa não podem ser conduzidas por uma Presidente sem nível doutoral e com currículo acadêmico que beira ao deboche.

Quando a técnica sai pela porta, a vergonha entra pela janela.

A tragédia não é jurídica. É moral.

O Estado do Rio de Janeiro parece condenado a repetir o mesmo erro com a obstinação de quem acredita que o problema não é o modelo, mas quem denuncia o modelo.

O que mais me espanta não é o escândalo. É a arrogância reincidente.

Eu alertei no Ceperj.
Fui ignorado.

Agora volto a alertar. A cadeia está próxima. E pode faltar celas para quantidade de gente que vai ser presa.

 

Victor Travancas é Advogado. Mestre e Doutor em Direito Constitucional.

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