O Nobel dos Direitos Humanos reconheceu o trabalho da defensora Ana Paula Gomes de Oliveira, 48 anos, que venceu o Prêmio Martin Ennals 2025 graças à sua atuação contra a violência policial nas favelas do Rio. A cerimônia será realizada no dia 26 de novembro, em Genebra, e marca uma década de mobilização iniciada após a morte de seu filho Johnatha, em 2014.
De acordo com a organização do prêmio, o reconhecimento é dado a defensores de direitos humanos selecionados por um júri formado por dez das principais entidades globais do setor. Ana Paula se destacou pela coragem de denunciar a letalidade policial, o racismo estrutural e por acolher famílias que perderam parentes para ações do Estado.
A luta teve início após a morte de Johnatha de Oliveira Lima, então com 19 anos, baleado pelas costas por um policial militar da UPP de Manguinhos. No dia do crime, o jovem havia saído para entregar uma travessa de pavê à avó. Depois de deixar a namorada em casa, foi atingido durante um tumulto na comunidade. Meses mais tarde, ficou comprovado que o tiro partiu da arma de um PM.
A polícia tentou apresentá-lo como criminoso, mas Ana Paula reuniu provas e mostrou sua inocência. Com o apoio da irmã, Patrícia, ela encontrou outras mulheres que viviam o mesmo luto. Assim surgiu, sem planejamento, o Movimento Mães de Manguinhos, que se tornaria uma das vozes mais importantes contra a violência de Estado no Rio.
O caso ainda não foi concluído pela Justiça. Em março de 2024, o 3º Tribunal do Júri decidiu que o PM Alessandro Marcelino de Souza seria julgado por homicídio culposo, quando não há intenção de matar. A Defensoria Pública recorreu pedindo condenação, mas o julgamento ainda não aconteceu.
A trajetória de Ana Paula já havia ganhado destaque em reportagens, documentários e ações de organizações internacionais. Integrante da Rede de Assistência às Vítimas da Violência de Estado (Raave), ela se tornou referência em momentos de operações policiais que deixaram dezenas de mortos no Rio, especialmente no Complexo do Alemão e na Penha.
Sobre o prêmio, ela afirma que o reconhecimento chega em um momento simbólico. “É uma forma de ter alguma justiça. Até hoje ninguém foi responsabilizado pela morte do meu filho — nem o policial, nem o Estado. Mas eu não vou desistir. Receber esse prêmio fortalece a denúncia da letalidade policial e do racismo na nossa sociedade.”
O Movimento Mães de Manguinhos, fundado por ela, se tornou um espaço de acolhimento e orientação a mães que perderam seus filhos para a violência policial. “Somos as Mães de Manguinhos, e seguimos numa luta árdua e dolorosa pela garantia do direito à vida nas favelas. É nisso que encontro sentido para viver”, diz.
Apesar das ameaças e do desgaste emocional, Ana Paula afirma que o ativismo também reforça sua maternidade. “A luta foi a forma que encontrei de continuar sendo mãe do Johnatha, cuidando dele — e isso me levou além.”
Com o reconhecimento internacional, Ana Paula Gomes de Oliveira consolida-se como uma das principais vozes dos direitos humanos no Brasil, levando ao mundo o clamor das mães que transformam dor em resistência.














