Mulher Acusa Clínica Espiritual de Manipulação e Coação para Desviar R$ 17 Milhões
Uma mulher de São Paulo alega ter sido vítima de um esquema de manipulação e coação por parte de uma clínica espiritual, que a teria levado a desviar mais de R$ 17 milhões da empresa onde trabalhava. Segundo seu relato, os valores foram destinados ao pagamento de serviços religiosos oferecidos pela clínica.
A mulher, identificada como Ana*, afirma ter procurado a clínica após ver divulgações de influenciadores digitais nas redes sociais. Ela relata ter contratado serviços de mediunidade e, posteriormente, ter sido convencida a realizar pagamentos vultosos para supostos trabalhos espirituais.
A clínica, que teria recebido R$ 9,4 milhões de Ana, nega as irregularidades. O caso está sob análise do Ministério Público do Estado (MPSP), após a denúncia inicial ter sido arquivada e contestada pela vítima.
O Início da Relação com a Clínica Espiritual
Em março de 2021, durante o isolamento social imposto pela pandemia, Ana* buscava alívio para problemas de saúde mental e depressão. Ao navegar pelo Instagram, deparou-se com a divulgação de uma influenciadora elogiando a Clínica Céu Azul e uma astróloga associada a ela. Curiosa, Ana iniciou contato no mesmo mês.
A primeira consulta, um jogo de tarot, custou R$ 250. A médium responsável pelo atendimento, que se apresentava como Fernanda, teria alertado Ana sobre um suposto “emaranhamento” em sua vida e o fechamento de seus caminhos profissionais devido a feitiços.
Para “quebrar a feitiçaria”, a médium teria exigido um pagamento imediato de R$ 740 para um “trabalho com velas”. Pouco tempo depois, Ana relata que Fernanda solicitou mais R$ 7.470 para a compra de 37 velas, dando início a uma escalada de pagamentos.
O Papel do “Mentor Espiritual” e a Coerção
Fernanda então apresentou Ana a Roberto, outro sócio da clínica, que se dizia um experiente mentor espiritual. Ana descreve que Roberto passou a exercer um “controle absoluto” sobre sua rotina e decisões, alegando que ela era vítima de “magia pesada” vinda de seu local de trabalho.
Roberto exigia novos pagamentos para trabalhos espirituais, ameaçando que “todo o mal seria revertido” contra Ana e sua família caso ela hesitasse. Ele chegou a afirmar que o animal de estimação dela morreria e que seus pais seriam gravemente afetados pela “carga espiritual”.
Ana conta que foi coagida a passar noites em claro realizando rituais e orações para “cicatrizar” os supostos trabalhos espirituais. Essa privação de sono fragilizou ainda mais seu estado mental, levando-a a depender cada vez mais dos atendimentos da clínica e a realizar novos pagamentos.
Declarações Forçadas e Promessas de Ressarcimento
A cada transferência bancária, Roberto exigia que Ana escrevesse declarações de próprio punho afirmando que os pagamentos eram feitos “de bom grado e de coração”. Essas declarações eram fotografadas e enviadas a Fernanda, o que, na avaliação de Ana, serviria como prova de voluntariedade.
Os valores aumentaram drasticamente, com Ana chegando a pagar R$ 90 mil em um único trabalho. Os responsáveis pela clínica teriam prometido a devolução dos valores posteriormente, na forma de “doação”, após a “cicatrização dos trabalhos espirituais”, promessa essa que não se concretizou.
As transferências via Pix de Ana para a clínica totalizaram R$ 1.072.837,50 em aproximadamente 20 meses. Quando suas economias se esgotaram e ela tentou interromper os tratamentos, Ana alega ter sido coagida a desviar recursos da empresa onde trabalhava.
Investigações Criminais e “Sequestro Emocional”
Após a descoberta dos desvios financeiros, Ana passou a responder a um processo criminal por furto qualificado, mediante abuso de confiança e fraude continuada. A investigação atribui a ela o desvio de mais de R$ 17 milhões da empresa, sendo que R$ 9,4 milhões teriam sido transferidos para contas ligadas à clínica e seus responsáveis, Mayara Aristides e Estevo Yanko Gaichi.
A defesa de Ana sustenta que ela foi vítima de “sequestro emocional” e induzida a cometer os desvios. Argumentam que ela sofreu ameaças de tragédias físicas e espirituais, o que causou grave abalo psicológico. Ana considera o inquérito “fraudado” e uma tentativa de “asfixia judicial” para silenciá-la e impedir que denuncie a clínica.
Outras Denúncias e o Posicionamento da Clínica
Além da denúncia de Ana, outra mulher acusou a Clínica Céu Azul de estelionato, alegando ter gastado mais de R$ 800 mil em trabalhos espirituais. Essa investigação também foi arquivada pelo MPSP em janeiro de 2024.
A clínica, que já utilizou os nomes Equilíbrio e Luz Espiritual e Espaço Núcleo Espiritual, nega as acusações. Em nota, a defesa afirmou que os proprietários sempre pautaram o atendimento com honestidade e clareza, explicando que no mundo espiritual não há garantias e que tudo depende do comportamento do contratante.














