Morre Pepe Mujica, símbolo de ética e simplicidade na política

Pepe Mujica

Morre Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai e figura histórica da política latino-americana, aos 89 anos. Ele enfrentava um câncer de esôfago em estágio avançado, com metástase no fígado, e optou por não se submeter a tratamentos invasivos devido à idade e à saúde fragilizada. O falecimento ocorreu nesta terça-feira (13), conforme comunicado de sua esposa, a ex-vice-presidente uruguaia Lucía Topolanski.

Reconhecido mundialmente por sua vida simples e coerência política, Mujica ficou conhecido como “o presidente mais pobre do mundo”. Durante seu mandato, recusou luxos, viveu em uma chácara nos arredores de Montevidéu e doava a maior parte do salário para instituições sociais.

“Estou morrendo. Que me deixem em paz. Meu ciclo já terminou”, declarou Mujica em abril, ao recusar entrevistas e pedir serenidade nos seus últimos dias. Segundo a família, ele recebia cuidados paliativos e passou os últimos momentos de forma consciente e tranquila.

Nascido em 1935, em Montevidéu, Mujica teve uma trajetória marcada pela resistência. Foi líder do movimento guerrilheiro Tupamaros na década de 1960, combatendo a ditadura militar. Preso por 14 anos, parte deles em solitárias e sob tortura, foi libertado apenas com a redemocratização, em 1985.

Em 2009, venceu as eleições presidenciais e tomou posse no ano seguinte. Durante seu governo, o Uruguai legalizou o aborto, o casamento igualitário e a maconha — medidas consideradas históricas e progressistas. Mujica também transformou o Palácio Presidencial em abrigo para pessoas em situação de rua e seguia morando na modesta propriedade onde cultivava flores e vivia com a esposa e o inseparável cachorro de três patas.

Em suas últimas entrevistas, o ex-presidente refletia com serenidade sobre a morte e o sentido da vida. “A vida é linda. Com todos os seus altos e baixos, eu amo a vida. E estou perdendo-a porque é minha hora de ir embora”, disse ao New York Times.

Apesar da proximidade do fim, manteve sua lucidez e crítica ao cenário global. “Há muitas pessoas loucas com armas atômicas. Muito fanatismo. Deveríamos estar construindo moinhos de vento, mas gastamos em armas. Que animal complicado é o homem.”

Pepe Mujica deixa um legado de ética, simplicidade e compromisso social, sendo lembrado como uma referência moral não apenas no Uruguai, mas em toda a América Latina. A sua morte encerra uma era de esperança política e humanidade, que marcou profundamente os que acreditam em uma política feita com os pés no chão e o coração no povo.

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