Um novo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou um dado alarmante sobre a acessibilidade urbana no estado do Rio de Janeiro. Segundo o Censo 2022, 88% dos fluminenses vivem sem rampas para cadeirantes nas vias públicas próximas às suas residências. Isso significa que quase nove em cada dez moradores enfrentam a ausência de estruturas básicas de inclusão, dificultando a mobilidade de pessoas com deficiência.
O índice posiciona o estado na 10ª colocação entre os piores do país em acessibilidade para cadeirantes, demonstrando que, mesmo em regiões urbanas, a infraestrutura ainda é falha. A pesquisa observou os arredores dos domicílios para avaliar a presença de elementos essenciais à circulação segura e acessível.
Além da ausência de rampas, o levantamento mostra que 80,8% dos fluminenses convivem com obstáculos nas calçadas, como postes, degraus ou mobiliário urbano inadequado. Já 97,5% vivem em áreas sem qualquer tipo de sinalização para bicicletas, e 20,6% das pessoas moram em locais onde sequer existem calçadas.
Acessibilidade urbana é desafio antigo
O gerente de Pesquisas e Classificações Territoriais do IBGE, Jaison Cervi, explicou que a metodologia do levantamento considera dez elementos fundamentais para analisar as características urbanísticas do entorno dos domicílios. Entre eles estão a pavimentação da via, bueiros, iluminação pública, sinalização cicloviária, presença de calçadas e rampas para cadeirantes.
Segundo Cervi, a falta de calçadas adequadas e a ausência de infraestrutura específica para pessoas com deficiência ainda são desafios estruturais no país. “De forma geral, os percentuais de moradores residindo em vias com sinalização para bicicletas foram significativamente baixos, revelando que a infraestrutura das vias no país ainda é muito direcionada para veículos automotores”, afirmou.
Ele também destacou que, diferentemente do Censo de 2010, o novo levantamento considerou a existência de calçadas mesmo sem pavimentação, ampliando a abrangência da análise, mas também evidenciando a precariedade dos espaços.
Impactos sociais e invisibilidade
Para especialistas em mobilidade urbana e inclusão, os dados do Censo confirmam uma realidade já sentida por quem vive com mobilidade reduzida. A ausência de rampas, calçadas adequadas e sinalização cicloviária cria um ambiente excludente e perigoso para cadeirantes, idosos, mães com carrinhos de bebê e ciclistas.
Segundo a urbanista Mariana Mello, falta prioridade nos investimentos: “A acessibilidade ainda é vista como um detalhe opcional, quando, na verdade deveria ser o ponto de partida para qualquer política urbana”, afirma.
O problema, segundo ela, se agrava nas periferias e em áreas de urbanização desordenada, onde a infraestrutura pública é ainda mais precária e os deslocamentos se tornam um desafio diário.
Inclusão ainda distante
Apesar de iniciativas pontuais de prefeituras e estados para tornar espaços públicos mais acessíveis, os números do Censo mostram que o Brasil ainda está longe de garantir mobilidade universal em seus centros urbanos. O dado de que 20,6% dos fluminenses vivem em locais sem qualquer tipo de calçada reforça essa desigualdade e sinaliza a urgência de ações efetivas.
Segundo levantamento da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), cada R$ 1 investido em infraestrutura urbana acessível pode gerar até R$ 3 de retorno em benefícios sociais e de saúde pública. O dado reforça que acessibilidade é uma questão de cidadania e de economia inteligente.
Caminhos possíveis
O Censo 2022 traz dados fundamentais para orientar políticas públicas nos próximos anos. Para especialistas, é preciso criar um plano estadual de acessibilidade urbana, com metas específicas para construção de rampas, revitalização de calçadas e ampliação de ciclovias. Além disso, a fiscalização de obras públicas deve ser intensificada para garantir o cumprimento das normas de acessibilidade.
Organizações da sociedade civil e movimentos de pessoas com deficiência também cobram mais representatividade nas decisões políticas sobre mobilidade e urbanização. “Enquanto os projetos forem pensados sem a nossa participação, os erros vão continuar”, declarou em audiência pública a ativista Carolina Diniz, do coletivo Mobiliza PCD.
Com a chegada de eventos internacionais e o crescimento do turismo no estado, a expectativa é que a pressão aumente para que o Rio de Janeiro avance na inclusão urbana, tornando-se uma referência em mobilidade acessível e eficiente.














