O que deveria ser uma extração dentária de rotina acabou se tornando um pesadelo para a aposentada Maria Cristina Soares, de 62 anos. Após meses de dor, ela descobriu que parte de uma broca cirúrgica havia ficado alojada em seu crânio.
A partir do 2º parágrafo, apuração de Raoni Alves ao portal G1 detalha que Cristina passou quatro meses sem saber do corpo estranho, até que intensas dores de cabeça a levaram a novos exames. A broca de 1,2 cm poderia ter causado complicações graves, segundo médicos consultados pela paciente.
“O mais grave não foi o erro em si. Erros acontecem. O problema foi a negligência. Eu voltei várias vezes ao consultório da doutora, fui atendida por ela em outras demandas, mas ninguém me avisou nada. Fiquei 4 meses com a broca na face”, relatou Maria Cristina. “Eu poderia ter aspirado a broca e ela ir para o pulmão, ou ser engolida e perfurar o intestino”, completou.
Dentistas condenados, mas valor da indenização é contestado
A decisão da Justiça foi proferida no dia 12 de maio deste ano pela 1ª Vara Cível da Barra da Tijuca. O juiz Arthur Eduardo Magalhães Ferreira reconheceu negligência dos profissionais e determinou o pagamento de R$ 8 mil por danos morais, além de R$ 1.240 por danos materiais e 10% de honorários sobre o valor total.
Para o advogado Daniel Blanck, que representa a paciente, o valor é insuficiente diante da gravidade do ocorrido. “Acreditamos que é possível alcançar um valor mais justo, que reflita a gravidade do ocorrido e sirva de exemplo para evitar que situações como essa se repitam”, declarou ele. “O juiz reconheceu que houve responsabilidade subjetiva e entendeu que a conduta dos profissionais foi omissiva e negligente.”
Procedimento foi realizado por dentista indicado no dia
A extração foi feita em 23 de junho de 2022 no consultório da dentista Priscilla Bittencourt Palladino Monteiro, na Barra da Tijuca. No entanto, no momento do procedimento, quem realizou a cirurgia foi o dentista Lucas Tetsuya Murai, chamado pela própria Priscilla.
Cristina relatou que ouviu o dentista mencionar que não encontrava a broca após a quebra do instrumento. A secretária chegou a entrar na sala, acreditando que o objeto havia caído no chão, mas a doutora minimizou a situação. Nenhum exame foi solicitado para verificar a possibilidade da broca ter ficado alojada.
“Ela me tranquilizou, mas não pediu nenhum raio-x para verificar se a broca poderia ter ido para outra parte do meu rosto. A broca foi como uma flecha e acabou alojada atrás do meu nariz. Mas eu não sabia.”
Dores intensas e descoberta fora do país
Ainda segundo Cristina, as dores começaram logo após o procedimento. Mesmo assim, ela retornou ao consultório em julho para extrair outro dente com os mesmos profissionais. Em setembro, durante uma viagem a Portugal, os sintomas se intensificaram. De volta ao Brasil, procurou outro dentista, que solicitou exames.
“Viajei para Portugal por uns 20 dias e comecei a sentir muita dor. Ninguém falava nada sobre a broca. Eu estava completamente ignorante sobre o que estava acontecendo. Quatro meses depois, procurei meu dentista antigo, na Tijuca. Ele pediu um raio-x panorâmico e, na hora, viu a broca.”
Exames de tomografia confirmaram a presença do corpo metálico na nasofaringe. O objeto foi descrito como um fragmento de 1,2 cm preso na parte posterior do nariz.
Cirurgia frustrada e dor no pós-operatório
Com a orientação de um cirurgião bucomaxilofacial, foi agendada uma cirurgia com anestesia geral. O procedimento durou cerca de três horas, mas não foi possível localizar a broca com o uso de endoscopia.
Mais tarde, uma nova tomografia apontou que o objeto não estava mais presente. A suspeita é que ele tenha sido deslocado e expelido sem que a paciente percebesse.
“Fiz tomografias do corpo inteiro para ver se a broca tinha se deslocado. Fiz muitos exames, inclusive raio-x de todo o corpo e nada.”
O que dizem os envolvidos
Em nota, a dentista Priscilla Bittencourt Palladino Monteiro alegou que o procedimento foi realizado por outro profissional da equipe e que sempre prestou atendimento ético e responsável.
“Durante todo o atendimento, foram adotadas as medidas adequadas de segurança, com realização de exames, acompanhamento contínuo e total suporte à paciente. Embora tenha havido uma sentença de primeira instância, a defesa confia plenamente na reversão do julgado.”
Até o momento, o dentista Lucas Tetsuya Murai não se pronunciou.














