O investimento da Cedae no Banco Master virou alvo de auditoria interna após a estatal registrar prejuízo milionário com a aplicação de recursos na instituição financeira. Documentos obtidos pela Globonews apontam que o banco não atendia aos requisitos previstos na política de investimentos da companhia no início das tratativas para um aporte de R$ 200 milhões.
Segundo o relatório, a Cedae recebeu documentos em julho de 2023 indicando que o Banco Master tinha classificação de risco inferior à exigida pelas regras internas da empresa. Além disso, a instituição era avaliada por apenas uma agência de rating, o que também contrariava os critérios então vigentes.
Ainda de acordo com a auditoria, a política de investimentos da estatal foi modificada meses depois, passando a permitir aplicações em instituições com perfil semelhante ao do Banco Master. As mudanças incluíram a redução das exigências relacionadas às agências de classificação de risco e a criação de uma nova faixa que passou a aceitar bancos classificados entre BBB+ e BBB.
O relatório afirma que, apenas dois meses antes da alteração, documentos internos apontavam que o Banco Master era inelegível para receber os recursos da Cedae. Mesmo assim, as novas regras abriram caminho para a aplicação financeira.
Após a perda dos valores investidos, a nova direção da Cedae abriu uma apuração interna. O presidente da companhia, Rafael Rolim, encaminhou o relatório à diretoria com recomendação de envio ao Tribunal de Contas do Estado e ao Ministério Público do Rio de Janeiro.
A auditoria também aponta que a diretoria financeira teria ignorado alertas internos sobre a piora da situação do Banco Master. Segundo os documentos, o prejuízo acumulado pela estatal ultrapassou R$ 222 milhões.
Os registros da Cedae indicam que representantes do Banco Master participaram de reunião com integrantes da Diretoria Financeira e de Relação com Investidores da estatal em 17 de maio de 2023. A data é anterior à versão informada pela administração da empresa à Comissão de Valores Mobiliários, segundo a qual o primeiro contato teria ocorrido em 27 de junho daquele ano.
Documentos também citam viagens de representantes da área financeira da Cedae a São Paulo para encontros com executivos do Banco Master. As negociações teriam sido conduzidas pela Diretoria Financeira e por um grupo restrito de assessores.
De acordo com a auditoria, quando outras áreas da estatal passaram a ter conhecimento da operação, começaram a surgir alertas internos sobre o risco financeiro e o tamanho da exposição da companhia.
Os auditores destacaram ainda que a proposta de alteração das regras foi apresentada ao Conselho de Administração e ao Comitê de Auditoria sob o argumento de diversificar a carteira de investimentos e aumentar a rentabilidade. No entanto, segundo o relatório, os órgãos não teriam recebido informações suficientes para identificar que as mudanças poderiam viabilizar uma transação específica.
Em 2025, diversas áreas da Cedae passaram a alertar sobre a situação financeira do Banco Master e buscaram alternativas para reduzir a exposição da companhia. A estatal tentou recuperar os recursos em setembro daquele ano, mas o banco já enfrentava dificuldades financeiras e apresentou propostas para parcelar a devolução.
A perda se concretizou após uma das parcelas deixar de ser paga em novembro, quando o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master. A partir desse momento, o prejuízo da Cedae passou a ser considerado efetivo.
A investigação também menciona um jantar oferecido pelo banqueiro Daniel Vorcaro ao então governador Cláudio Castro em Nova York, seis dias antes da primeira reunião registrada entre representantes do Master e da Cedae. Segundo a auditoria da estatal, porém, não há relação entre os encontros.
Em nota, Antônio Carlos dos Santos, diretor financeiro da Cedae entre outubro de 2022 e março de 2026, repudiou as alegações de omissão de dados e afirmou que todos os conselheiros, diretores e auditores recebiam mensalmente relatórios sobre as aplicações financeiras da companhia.
“Todos os conselheiros, diretores e auditores da CEDAE recebiam mensalmente relatórios de todas as aplicações financeiras, inclusive também constavam no portal da empresa. Importante frisar que a CEDAE foi a única empresa que realizou resgates, interrompidos pela liquidação decretada pelo Banco Central.”
Ele também afirmou manter tranquilidade em relação aos atos de gestão.
“Toda a minha vida profissional sempre foi pautada pela seriedade, ética, lisura e estrita responsabilidade técnica. Manifesto total tranquilidade em relação aos meus atos de gestão e confio plenamente que a verdade dos fatos virá à tona e prevalecerá perante os órgãos de controle e a sociedade.”
A Cedae informou que o relatório de auditoria foi realizado por determinação do presidente Rafael Rolim, endossado pela Diretoria Executiva e encaminhado ao Governo do Estado. A companhia também recomendou o compartilhamento do documento com órgãos de controle, incluindo a Procuradoria Geral do Estado, o Tribunal de Contas do Estado, o Ministério Público e a Comissão de Valores Mobiliários.
O caso agora deve avançar para novas análises dos órgãos competentes, enquanto a estatal tenta esclarecer como as mudanças internas permitiram a aplicação milionária e quais responsabilidades podem ser atribuídas aos envolvidos.














