A internet nas escolas públicas brasileiras avançou nos últimos anos, impulsionada por programas federais e investimentos bilionários em conectividade. No entanto, a chegada da internet de alta velocidade ainda não tem sido suficiente para transformar a rotina pedagógica de milhares de estudantes, já que muitas unidades seguem sem computadores, tablets, laboratórios ou espaços adequados para o uso da tecnologia em sala de aula.
De acordo com dados obtidos pelo UOL junto ao Ministério da Educação, por meio da Lei de Acesso à Informação, e cruzados com informações do Censo Escolar de 2025, cerca de 23,3 mil escolas públicas do país têm internet de alta velocidade, mas não possuem equipamentos ou infraestrutura suficientes para o uso pedagógico adequado.
Essas unidades atendem aproximadamente 3 milhões de estudantes. O número representa cerca de 24% das escolas públicas conectadas por programas federais, revelando um descompasso entre a expansão da rede e a capacidade real de transformar a conexão em ferramenta de aprendizagem.
A situação ganhou ainda mais peso após a proibição do uso de celulares por estudantes no ambiente escolar. Com a restrição, escolas passaram a depender ainda mais de computadores, tablets e laboratórios de informática para garantir atividades digitais, pesquisas e conteúdos online.
Um dos exemplos citados é a Escola Classe Altamir, no núcleo rural de Planaltina, no Distrito Federal. A unidade recebeu, há cerca de um ano, internet por fibra óptica com velocidade de 285 megas. Mesmo assim, os alunos ainda não conseguem usar os recursos digitais no cotidiano escolar.
Na escola, 20 computadores desktop doados pela iniciativa privada permanecem guardados. O motivo é a falta de uma sala apropriada para instalar os equipamentos. Para que os estudantes possam utilizá-los, seria necessária a construção de um novo espaço pelo Governo do Distrito Federal.
A unidade atende cerca de 200 alunos, da educação infantil ao 5º ano do ensino fundamental. Na porta da escola, mães relataram ao UOL que consideram o acesso à tecnologia essencial para o futuro das crianças.
“Porque, hoje em dia, o mundo está muito digital”, disse uma mãe de aluno ao UOL.
A manicure Ivaneide Lima da Silva afirmou que os alunos mais velhos seriam especialmente beneficiados pelo contato com os equipamentos.
“Seria ótimo para eles terem esse conhecimento, para já sair da escola engrenados”, disse Ivaneide Lima da Silva ao UOL. “Se todas tivessem [computadores], seria maravilhoso.”
A diretora da escola, Ellen Silva de Deus, também defendeu que os equipamentos são fundamentais para aproximar os alunos das ferramentas tecnológicas usadas no processo educacional.
Segundo ela, os dispositivos ajudam os estudantes a “acessar a tecnologia, a informação, saber usar a máquina e todas as ferramentas que a gente tem de ensino”, afirmou ao UOL.
A reportagem também consultou outras seis escolas públicas do Distrito Federal. Cinco delas relataram não possuir dispositivos tecnológicos ou laboratório de informática disponível para os estudantes. Uma unidade informou ter recebido 18 tablets durante a pandemia de Covid-19, mas o número é insuficiente para atender todos os alunos.
O cenário mostra que a simples conexão à internet não resolve, sozinha, o problema da inclusão digital na educação. Sem equipamentos e estrutura física adequada, a internet chega à escola, mas não necessariamente chega ao estudante.
No fim do ano passado, o Ministério das Comunicações lançou uma campanha publicitária de R$ 6 milhões para divulgar a ampliação da conectividade nas escolas públicas. A peça destacava mais de 90 mil escolas conectadas e projetava 138 mil unidades atendidas até o fim de 2026.
A campanha também citava 23 milhões de estudantes com acesso à internet de qualidade. No entanto, segundo cálculos baseados no Censo Escolar, cerca de 13% dos alunos mencionados na propaganda estudam em escolas sem equipamentos adequados para uso pedagógico da conexão.
A conectividade nas escolas é uma das prioridades do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em setembro de 2023, o governo federal lançou a Estratégia Nacional de Escolas Conectadas, voltada à ampliação do acesso digital nas redes de ensino.
O programa prevê investimentos de R$ 8,8 bilhões até o fim deste ano em internet, infraestrutura elétrica, equipamentos tecnológicos e conteúdos educacionais. Durante o lançamento da iniciativa, o então ministro da Educação, Camilo Santana, afirmou que o objetivo não era apenas levar conexão às unidades.
“É que tenha equipamento. Que pelo menos tenha um laboratório de informática, tablet, wi-fi na escola”, declarou Camilo Santana.
Na mesma ocasião, Lula afirmou que o país chegaria ao fim de 2026 mais conectado e digitalizado.
“Mais bem informado, mais conectado, com as pessoas recebendo conteúdo em mais quantidade e mais qualidade”, disse Lula.
Em janeiro deste ano, 96.048 escolas públicas brasileiras tinham acesso à internet. Em março, o Ministério da Educação anunciou que o número havia chegado a 99.005 unidades conectadas.
“Chegamos a 99.005 escolas conectadas com fins pedagógicos”, afirmou Camilo Santana.
O ministro também reforçou que a proposta não é apenas levar sinal de internet às escolas, mas garantir uso educacional da conexão.
“Importante dizer que não é conectar, apenas levar internet, é levar internet com fins pedagógicos, que o professor possa passar um vídeo, para que os alunos possam ter acesso ao computador, à internet”, declarou.
Especialistas, porém, alertam que a falta de equipamentos pode transformar parte do investimento em conectividade em recurso pouco aproveitado. Para a cientista política Andressa Pellanda, a existência de internet de qualidade não garante, por si só, impacto pedagógico.
“A mera existência de um ponto de internet de qualidade não se traduz automaticamente em benefício pedagógico”, afirmou Andressa Pellanda ao UOL. “Sem os equipamentos, a internet se torna um recurso ocioso.”
Segundo ela, é necessário integrar conexão, infraestrutura e aquisição de dispositivos em um mesmo planejamento. A especialista defende que isso exige coordenação entre União, estados e municípios.
“Exige planejamento integrado, financiamento adequado e uma forte coordenação federativa”, afirmou.
A Campanha Nacional pelo Direito à Educação defende a implementação do CAQ, o Custo Aluno-Qualidade, mecanismo que estabelece parâmetros mínimos de investimento por estudante na educação básica. Para Pellanda, o modelo ajudaria a dimensionar melhor as necessidades de cada rede.
“Um planejamento baseado no CAQ permitiria dimensionar os custos e as necessidades de cada escola e rede de ensino, viabilizando investimentos sincronizados em infraestrutura de rede e aquisição de equipamentos”, afirmou ao UOL.
A Estratégia Nacional de Escolas Conectadas passou a reunir políticas públicas que antes estavam distribuídas entre diferentes órgãos federais. Uma das mudanças envolveu a redefinição do uso dos recursos do leilão do 5G.
Inicialmente, os valores seriam destinados à oferta de internet e equipamentos para 10 mil escolas por três anos. Com a reformulação, os recursos passaram a financiar apenas a conexão de 40 mil unidades por dois anos, sem a entrega simultânea de dispositivos.
As obras de conectividade são executadas pela Entidade Administradora da Conectividade de Escolas, conhecida como Eace, responsável por administrar cerca de R$ 3,1 bilhões ligados ao projeto. A entidade ganhou peso político nos últimos anos, segundo a reportagem.
Entre 2024 e 2025, a Eace ampliou em 28% os gastos com pessoal, chegando a R$ 22,2 milhões anuais. Em maio deste ano, a entidade também contratou três conselheiros, entre eles dois ex-executivos do BRB e um advogado filho do ministro do STJ Reynaldo Soares da Fonseca.
Enquanto o país amplia os números de escolas conectadas, estudantes e professores ainda enfrentam obstáculos básicos para transformar internet em aprendizado. A conexão chegou a milhares de unidades, mas, sem computadores e estrutura adequada, parte da promessa de inclusão digital segue distante da sala de aula.














