Inscrição Persa de 117 Anos no Theatro Municipal do Rio é Decifrada, Revelando Saudações a Rei Antigo

Inscrição Persa de 117 Anos no Theatro Municipal do Rio

Mistério de 117 anos no Theatro Municipal do Rio de Janeiro é desvendado com a tradução de inscrição em persa antigo.

Uma escrita milenar, guardada por mais de um século no imponente Theatro Municipal do Rio de Janeiro, finalmente teve seu segredo revelado. A inscrição em cuneiforme persa, localizada no coração do Salão Assyrio, um dos espaços mais emblemáticos do teatro, permaneceu um enigma por 117 anos.

A tradução, fruto do trabalho de pesquisadores da UFRJ e da UERJ, trouxe à luz uma saudação direta a um dos grandes nomes da história persa, conectando o patrimônio cultural brasileiro a um legado de impérios e reis distantes.

As informações, divulgadas pela revista Arte!Brasileiros, narram a jornada acadêmica que desvendou a mensagem, enriquecendo a história e a compreensão do próprio Salão Assyrio, que, desde sua inauguração em 1909, já ostentava uma atmosfera de mistério e grandiosidade.

A Descoberta que Levou Mais de um Século para Acontecer

A epopeia para decifrar a inscrição cuneiforme iniciou-se em janeiro de 2025, durante uma visita de rotina ao Salão Assyrio. O professor Alex Mazzanti Júnior, especialista em estudos clássicos e linguística indo-europeia da UFRJ, notou semelhanças da escrita com o persa antigo. Ele prontamente compartilhou sua percepção com Matheus Treuk, professor de arqueologia da UERJ e profundo conhecedor da Pérsia Aquemênida.

Juntos, os pesquisadores embarcaram em uma investigação minuciosa. O apoio da museóloga Raquel Villagrán Seoane, coordenadora do Centro de Documentação do Theatro Municipal, foi crucial, fornecendo imagens de alta resolução e documentos históricos que permitiram uma análise detalhada do conjunto decorativo.

A frase finalmente decifrada é: “Do Apadana de Artaxerxes, grande rei, rei dos reis, filho do rei Dario”. Este texto, agora compreendido, adiciona uma camada fascinante à história do Salão Assyrio, que já foi palco de eventos diversos, de restaurante a cabaré, e hoje encanta com visitas guiadas.

Conexões Persas e o Fascínio Orientalista no Rio de Janeiro

A decoração do Salão Assyrio, executada pela renomada empresa francesa La Grande Tuilerie d’Ivry (Grès Muller), que também contribuiu para a Torre Eiffel, guarda fortes elos com achados persas do Museu do Louvre. A ambientação do salão, realizada entre 1905 e 1909, dialoga com coleções de artefatos iranianos expostos em Paris, muitos deles apresentados na Exposição Universal de 1889.

O termo “cuneiforme”, que significa “em forma de cunha”, refere-se a um dos sistemas de escrita mais antigos da humanidade, originário da Mesopotâmia. A inscrição no teatro carioca, portanto, é um elo tangível com essa antiguidade profunda.

A figura central da inscrição é um rei persa, em um gesto de oferenda ou consagração, posicionado acima de um altar de fogo. Ao redor, guardiões com lanças emolduram o texto, que menciona o Apadana, um termo persa para salões de recepção ou palácios reais. Artaxerxes, o rei citado, viveu entre 497 a.C. e 427 a.C., filho de Dario, um nome de peso na dinastia Aquemênida.

O Salão Assyrio: Uma Obra de Arte que Mistura Culturas

A descoberta reacende um debate antigo sobre a própria denominação do salão. Cronistas da época já questionavam se o termo “assírio” seria o mais adequado, dada a iconografia inspirada em artefatos persas encontrados em Susa. A pesquisa atual confirma essa visão, apontando que a decoração do Salão Assyrio não se baseia em uma única fonte, mas sim em uma rica combinação de referências de Susa, Persépolis e Naqsh-i Rostam.

Essa fusão de elementos, como destaca o cronista João do Rio em 1913, cria uma atmosfera grandiosa, evocando “grandes ciclos históricos em que a Grécia sentia a Ásia colossal”. A combinação de referências arqueológicas de diferentes períodos e locais demonstra a expertise da Grès Muller em criar uma composição única e erudita.

Os pesquisadores Alex Mazzanti Júnior e Matheus Treuk ressaltam em artigo para a SciELO que o salão é uma “atestaçāo da alta expertise e erudição da Grès Muller”, uma obra rara no orientalismo brasileiro, que merece destaque nos estudos sobre arte e arquitetura no país.

A adaptação de modelos antigos, com a substituição de personagens assírios por figuras persas, é notável. Os atendentes ao lado do rei seguram objetos que mesclam tradições, como um abanador de moscas de Persépolis e uma toalha de inspiração assíria. O altar de fogo, por sua vez, substitui a mesa de oferendas assíria, remetendo aos altares em relevos funerários de Naqsh-i Rostam.

Essa riqueza de detalhes e a conexão com o fascínio orientalista do século XIX, impulsionado pela redescoberta de artefatos persas e sua circulação em exposições europeias, fazem do Salão Assyrio um objeto de estudo fascinante. Para os autores, o espaço “constitui, sem sombra de dúvida, uma das obras mais fascinantes e excepcionais da história do orientalismo e da recepçāo da Antiguidade Persa, devendo ter um lugar de destaque nos estudos sobre o tema no país”.

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