A casa onde Dario Antônio Raffaele D’Ottávio, de 88 anos, foi encontrado morto, em avançado estado de esqueletização, na Ilha do Governador, na Zona Norte do Rio, estava com as janelas fechadas há mais de um ano e vidros escuros que impediam qualquer visualização de fora. Segundo relatos de vizinhos, a residência também tinha frestas vedadas com panos, provavelmente para conter o odor do corpo.
De acordo com Marcos Nunes, do jornal O Globo, os policiais localizaram o corpo em cima de uma cama no pavimento superior do imóvel. A descoberta só foi possível após o serviço social do município acionar a polícia devido a denúncias de maus-tratos contra o idoso. Na ocasião, os filhos do idoso, Marcelo Marchese D’Ottavio e Tania Conceição Marchese D’Ottavio, tentaram impedir a entrada dos agentes na residência.
Os irmãos foram presos em flagrante por ocultação de cadáver, resistência e lesão corporal. Durante a abordagem, Marcelo chegou a agredir um policial. Após a prisão, ambos precisaram ser medicados com tranquilizantes e estão internados no Hospital Evandro Freire, na Ilha do Governador, para atendimento psiquiátrico.
Segundo o delegado Felipe Santoro, da 37ªDP, que conduz a investigação, foi solicitado à Justiça a conversão do flagrante em prisão preventiva, alegando que, em liberdade, os acusados poderiam atrapalhar as investigações e intimidar testemunhas.
— Representei pela prisão preventiva dos dois. Em liberdade, eles poderiam intimidar testemunhas e atrapalhar as investigações — explicou Santoro.
Os vizinhos relataram que o idoso era uma pessoa muito querida no bairro. Ele costumava passar parte do dia sentado na garagem, interagindo com quem passava. No entanto, desde o fim de 2023, ele não era mais visto. Já Marcelo, segundo relatos, apresentava comportamentos agressivos e surtos frequentes.
— Havia muita gritaria na casa. O Marcelo gritava muito e xingava. Via sempre o seu Dário no quintal, mas desde o fim do ano passado nunca mais. As janelas estavam sempre lacradas, com vidro escuro, e depois a polícia descobriu o corpo lá dentro — contou uma moradora.
O delegado destacou que, com base no estado de decomposição, a morte pode ter ocorrido há mais de seis meses. No entanto, a perícia ainda vai confirmar a data exata e a causa do falecimento.
A investigação trabalha com duas linhas principais: a possibilidade de morte natural, seguida da ocultação do cadáver, ou uma morte provocada por ação direta, seja ela por negligência, maus-tratos ou violência. Existe também a hipótese de que os filhos mantiveram o corpo em casa para continuar recebendo eventuais benefícios financeiros do idoso.
— Uma hipótese é que tenham mantido o corpo para recebimento de valores aos quais ele tinha direito. A outra é que, por um possível transtorno psiquiátrico, não aceitavam a morte do pai. Precisamos esclarecer isso com a perícia e investigação financeira — afirmou o delegado.
Ainda segundo Felipe Santoro, foi solicitado ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) informações sobre possíveis benefícios que Dario recebia, além das datas dos últimos pagamentos. Também serão analisadas movimentações bancárias da vítima nos últimos doze meses para entender se houve fraudes.
O delegado também pediu à Justiça que os dois irmãos sejam submetidos a exames de sanidade mental, já que, durante o contato com ambos, percebeu indícios de que eles poderiam não estar em plena saúde mental.
Os vizinhos, que há tempos notavam a ausência do idoso, foram os responsáveis por denunciar o sumiço às autoridades. Alguns relataram que não o viam há cerca de dois anos, embora a estimativa inicial da polícia aponte que ele tenha morrido há pouco mais de seis meses.
O corpo foi encontrado no quarto pavimento da casa, aparentemente para afastar o cheiro da vizinhança. Durante as buscas, os policiais também localizaram bens novos dentro do imóvel, levantando a suspeita de que os filhos poderiam estar usufruindo de recursos que pertenciam ao pai.
As investigações continuam na 37ª DP da Ilha do Governador. A Polícia Civil aguarda os resultados dos exames cadavéricos e da análise financeira para concluir se o caso configura crime de homicídio, fraude ou se trata de um episódio ligado a problemas psiquiátricos.














