Uma cidade de 40 mil habitantes que recebe o mundo inteiro durante cinco dias por causa de livros. Isso é Paraty. E isso é a FLIP.
A Festa Literária Internacional de Paraty chegou à sua 24ª edição entre os dias 22 e 26 de julho de 2026, e o que acontece ali nessa semana vai muito além de mesas de debate e lançamentos literários. A FLIP é um dos casos mais bem-sucedidos de turismo cultural do Brasil, um modelo que deveria ser estudado por qualquer gestor público que queira entender como a cultura pode ser motor de desenvolvimento econômico real.
Paraty é uma cidade pequena, histórica, tombada pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade. Tem charme, tem beleza, tem identidade. Mas tem também os desafios de qualquer cidade pequena do interior fluminense: economia dependente do turismo, sazonalidade, infraestrutura limitada. A FLIP chegou em 2003 e mudou esse quadro de forma permanente.
Hoje a festa movimenta a cidade de um jeito que nenhuma outra iniciativa conseguiria. Hotéis, pousadas, restaurantes e bares lotam semanas antes do evento. Artesãos, guias, transportadores, comerciantes, todos entram no ciclo econômico que a festa gera. E o mais importante: a FLIP não atrai um turista qualquer. Atrai um público com alto poder aquisitivo, que consome bem, que fica mais dias, que volta. O perfil do frequentador da FLIP é exatamente o que qualquer destino turístico quer atrair.
Nessa edição de 2026, a homenageada é Orides Fontela, poetisa paulista que nunca teve o reconhecimento que merecia em vida. Zadie Smith, Kamel Daoud, Hisham Matar e outros nomes internacionais de peso dividem espaço com escritores brasileiros e com a programação da Flipinha, da Flip Preta no Quilombo do Campinho e das 44 Casas espalhadas pela cidade histórica. São cinco dias de programação que transbordam para cada canto de Paraty.
O que me chama atenção nesse modelo é que a FLIP não acontece apesar de Paraty, ela acontece por causa de Paraty. A cidade é parte do espetáculo. As ruelas de pedra, as fachadas coloniais, o mar ao fundo, tudo isso compõe a experiência que o visitante vai guardar. Nenhum centro de convenções em São Paulo ou no Rio conseguiria reproduzir isso. O lugar importa, e Paraty entendeu isso antes de muita gente.
O Rio de Janeiro tem outros exemplos desse potencial ainda mal aproveitado. Destinos com história, com paisagem e com cultura que poderiam sediar eventos de alcance nacional e internacional, mas que ainda não encontraram o formato certo ou o investimento necessário. A FLIP mostra que quando o formato funciona, o retorno é muito maior do que qualquer campanha publicitária conseguiria gerar.
Turismo cultural bem feito não precisa de praia. Precisa de identidade, de conteúdo e de uma cidade que saiba receber. Paraty tem os três. E a FLIP prova isso todo ano.
Bruno Mann é empresário e CEO da Brazil Connection Turismo Receptivo














