A biomédica Samille Ornelas perdeu a vaga conquistada no curso de Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF) após a banca de heteroidentificação rejeitar sua autodeclaração como parda. Aos 31 anos, ela viu o sonho de estudar na universidade ser frustrado após anos de tentativas e dedicação aos estudos. A banca alegou que Samille não apresentava características fenotípicas compatíveis com a cota racial a que se candidatou.
Minha cor nunca foi uma dúvida. Na minha vida inteira, ninguém nunca questionou a minha cor. Enviei até meu ProUni, que também foi com cota racial, e no SUS estou como preta. Nunca fui branca, desabafou Samille em entrevista ao jornal O Dia.
Após ter seu recurso negado pela UFF, Samille entrou na Justiça e, em janeiro de 2025, a 1ª Vara Federal de Niterói determinou que a universidade realizasse sua matrícula com urgência. Ela largou o emprego, viajou até o Rio e iniciou o curso, enfrentando dificuldades financeiras para se manter. No entanto, em maio, o desembargador Guilherme Couto de Castro acatou recurso da UFF e cancelou novamente sua matrícula, alegando falta de provas para comprovar sua condição como parda.
Meus dados sumiram do sistema. Fui impedida de entrar no bandejão. Foi assim que descobri que tinham cancelado minha matrícula. Eu só sei chorar o dia inteiro, não consigo me olhar no espelho. É como se minha identidade tivesse sido apagada, contou.
Além da perda da vaga, Samille Ornelas passou por uma série de acontecimentos traumáticos: foi vítima de um golpe de um falso advogado, perdeu familiares e teve que cuidar da mãe atropelada. Abalada psicologicamente, relata crises de ansiedade e dificuldade até para retomar os estudos visando o Enem deste ano.
Parece que não fui com a cara da banca. É constrangedor, frustrante, como se eu estivesse em uma areia movediça. Quanto mais tento sair, mais afundo, concluiu.
A UFF ainda não se manifestou oficialmente sobre o caso.














