A operação Barricada Zero já liberou mais de duas mil vias em diferentes regiões do estado do Rio de Janeiro nos dois primeiros meses de atuação. A iniciativa foi criada para remover barricadas erguidas por criminosos com o objetivo de dificultar a entrada das forças de segurança em comunidades dominadas pelo tráfico.
Desde o início da força-tarefa, em novembro do ano passado, mais de sete mil toneladas de materiais como pneus, concreto, ferros e veículos abandonados foram retiradas das ruas. As ações se concentram principalmente na Região Metropolitana, incluindo bairros da capital e cidades como Duque de Caxias e São Gonçalo.
A prática de instalar bloqueios é antiga e se espalhou ao longo dos anos como forma de controle territorial do crime organizado. Em relatos feitos à ouvidoria do Ministério Público, moradores descrevem o medo constante e as ameaças sofridas ao serem obrigados a recolocar barricadas após a passagem de veículos.
“Somos obrigados a descer do carro, retirar a barricada e recolocá-la no lugar para conseguir passar. Eles ameaçaram quebrar braços e pernas de qualquer um que ouse remover os obstáculos”, relatou um morador de Saracuruna, em depoimento sob anonimato.
Mesmo com os avanços da operação, os dados mostram que o problema persiste. Apenas nos primeiros 20 dias deste ano, o Disque-Denúncia recebeu centenas de ligações relatando a presença de barricadas. Além disso, desde o início da operação, também passaram a ser registradas denúncias sobre a recolocação dos bloqueios após a saída das equipes policiais.
Para o analista de segurança Alessandro Visacro, a remoção das barricadas é fundamental para garantir a presença do Estado nas comunidades, mesmo que a prática criminosa tenha grande capacidade de se regenerar. “Não fazer nada é assumir que está entregando o território ao crime organizado. O desafio é impor um ritmo de repressão mais rápido do que a capacidade de regeneração deles”, afirmou, em entrevista ao jornal O Globo.
Visacro também avalia que a retirada dos obstáculos, por si só, não resolve o problema. Segundo ele, é necessário investigar a origem dos materiais usados nas barricadas e o caminho do dinheiro ilícito que sustenta essas estruturas. No ano passado, uma operação da Polícia Civil resultou na prisão de um suspeito de intermediar a compra de materiais em ferros-velhos para o tráfico.
Antes do início da operação Barricada Zero, o governo do estado havia mapeado mais de 13 mil pontos com algum tipo de bloqueio instalado pelo crime organizado. Os obstáculos variavam desde lixeiras e tonéis até estruturas mais complexas, como barras de ferro fincadas no asfalto e valas abertas nas ruas.
Segundo o secretário da Polícia Militar, coronel Marcelo Menezes, as barricadas são um dos principais pilares usados pelo crime para manter o domínio territorial, ao lado do uso de armamento pesado. “Quando nos deparamos com barricadas, os agentes são obrigados a desembarcar do blindado, o que coloca em risco a integridade física da equipe e compromete a operação”, explicou, em depoimento ao jornal O Globo.
Desde o início da força-tarefa, as equipes já atuaram em mais de 160 comunidades, espalhadas por 12 municípios da Região Metropolitana. Para ampliar a participação da população, o governador Cláudio Castro sancionou recentemente uma lei que cria o Disque-Barricada, um canal oficial para denúncias anônimas. O serviço ainda aguarda regulamentação para começar a funcionar.














