Curso de Urbanismo Social oferece bolsas a estudantes de comunidades vulneráveis

O Curso de Urbanismo Social tem ampliado o acesso de estudantes de comunidades vulneráveis à formação especializada por meio da concessão de bolsas de estudo e apoio financeiro. A pós-graduação, com duração de um ano, é oferecida pelo Insper, em São Paulo, e conta com o suporte do Instituto Manu, que viabiliza a participação de alunos de diferentes regiões do país.

Entre os formandos está a assistente social Liliane Santos, nascida e criada na Baixa do Sapateiro, uma das favelas que compõem o Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio. Ela integra o grupo de 19 estudantes do estado que concluíram o curso desde sua criação, em 2020. Ao todo, 156 alunos já passaram pela formação, muitos deles beneficiados por bolsas integrais ou parciais.

Além das mensalidades, que podem chegar a 24 parcelas de R$ 2,5 mil, os alunos precisam arcar com custos de deslocamento e hospedagem em São Paulo durante os encontros presenciais mensais. Por isso, o apoio financeiro é considerado essencial para viabilizar a participação de moradores de áreas vulneráveis.

O trabalho final de Liliane propõe intervenções urbanas na Rua Evanildo Alves, via conhecida por episódios de violência e confrontos armados. O projeto apresenta soluções que unem infraestrutura e convivência comunitária, com espaços verdes, áreas de encontro e a recuperação de um curso d’água antes degradado.

A divisa

A Rua Evanildo Alves, conhecida entre os moradores como “Divisa”, marca a fronteira entre territórios historicamente ocupados por facções diferentes. No projeto, Liliane sugere a retirada de barreiras físicas e a criação de áreas integradas que favoreçam a circulação e a convivência.

— Coloquei a grade no projeto, mas o ideal é que nem isso tivesse, que fosse um espaço integrado e voltado para convivência com o mobiliário urbano — diz a pesquisadora, em relato sobre o trabalho. — Eu tenho bem vivas na memória as cenas de violência que vi ali. Muitas vezes, pequenas intervenções têm mais impacto do que grandes obras.

A mesma via foi tema do trabalho do geógrafo Rian de Queiroz, de 29 anos, também formado com apoio do Instituto Manu. Nascido no Parque Maré, ele propôs uma requalificação socioambiental com foco na reciclagem, capacitação profissional e integração com políticas públicas já existentes.

— O lixo é a marca visível, mas a raiz é a desigualdade socioeconômica. A proposta é integrar reciclagem e capacitação de forma articulada com políticas públicas para garantir remuneração justa — explica Rian.

Contrastes no bairro

Outro trabalho desenvolvido no curso analisou a Cruzada São Sebastião, no Leblon. O historiador e professor Franco da Costa Nascimento comparou dados do IBGE com levantamentos próprios feitos na comunidade, revelando contrastes sociais e raciais profundos dentro de um dos bairros mais valorizados do país.

Segundo o pesquisador, enquanto o Leblon tem maioria branca, a Cruzada apresenta predominância de moradores pretos e pardos. O estudo aponta que o urbanismo social pode ajudar a recuperar a proposta original do conjunto habitacional, baseada na integração social.

— Quando abri o “cardápio” de possibilidades, os moradores trouxeram propostas muito objetivas, como energia solar, horta comunitária e coleta seletiva. Eles sabem exatamente o que querem para melhorar o cotidiano — afirma Franco.

Sem fórmulas

Para os participantes, uma das principais lições do curso é a escuta ativa das comunidades. A metodologia do urbanismo social parte do diagnóstico feito com os moradores, evitando soluções prontas e desconectadas da realidade local.

— O Brasil é complexo demais para soluções prontas. Sem ouvir quem vive no local, não é possível transformar — resume Franco.

O Instituto Manu reúne 15 escritórios de arquitetura de alto padrão cujos clientes destinam 1% do valor das obras para financiar bolsas de estudo. Entre 2022 e 2025, quase R$ 2,6 milhões foram investidos no programa.

— É urgente formar lideranças dentro das próprias comunidades, com ferramentas para transformar a realidade dos territórios onde vivem — afirma Miguel Pinto Guimarães, presidente do Instituto Manu.

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