Complexo de Operações Especiais segue com obras atrasadas após 15 anos

Complexo de Operações Especiais do Polícia

Prometido em 2010 como peça-chave no plano de pacificação do Complexo da Maré, o Complexo de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro segue inconcluso após 15 anos. Idealizado como base estratégica para unidades de elite da corporação, o projeto acumula atrasos, mudanças de escopo e uma série de aditivos contratuais. A informação é fruto de apuração do jornalista Felipe Grinberg, publicada neste sábado (11) pelo Jornal Extra.

O terreno de 230 mil metros quadrados em Ramos, na Zona Norte, foi adquirido pelo governo estadual junto ao Exército em 2010 por R$ 32 milhões. O plano original previa a instalação do Bope, do Batalhão de Choque, do Grupamento Aeromóvel (GAM) e do Batalhão de Ações com Cães (BAC), além de hangar, campo de futebol e ginásio esportivo. Na prática, no entanto, pouco se concretizou. Hoje, o espaço abriga uma sede improvisada do COE, oficina de blindados, estandes de tiro e áreas para simulações.

A ideia, na época, era que a presença das tropas de elite ao lado da Maré funcionasse como um “impacto de vizinhança”, nos moldes da experiência com o Bope na comunidade Tavares Bastos, no Catete. A localização, próxima a vias expressas como Avenida Brasil, Linha Vermelha e Linha Amarela, foi considerada estratégica para ações de pacificação. No entanto, desde a aquisição, cinco governadores passaram pelo Palácio Guanabara e o projeto jamais saiu do papel como prometido.

O complexo chegou a ser incluído como compromisso oficial do governo do Rio com o Comitê Olímpico Internacional, com previsão de entrega antes da Copa de 2014. Em 2014, duas licitações foram abertas para demolição de antigas estruturas militares e construção dos batalhões, mas nenhuma empresa demonstrou interesse, mesmo diante da oferta de R$ 353 milhões.

Em 2019, após anos de paralisações e com sinais de crise financeira, a Polícia Militar reformulou o projeto, reduzindo a ambição inicial. O Bope e o Choque permaneceriam em suas sedes originais, e novas construções seriam limitadas, com orçamento de R$ 60 milhões. Com recursos do leilão da Cedae, a primeira licitação foi finalmente realizada em 2021 para erguer um prédio de quatro andares com lajes pré-moldadas. A obra, inicialmente orçada em R$ 11,1 milhões e prevista para durar oito meses, já consumiu R$ 14,4 milhões e três anos de atraso.

Desde o início da construção, foram 12 aditivos contratuais. A empresa responsável, a construtora Carletti, apontou fatores como chuvas, recesso de fim de ano, aumento no preço do aço e até a guerra na Ucrânia como justificativas para os atrasos. A última solicitação inclui mais 90 dias de prazo, devido à demora na aprovação de documentos por parte do Corpo de Bombeiros, que já exigiu 16 ajustes no projeto.

Outros projetos previstos para o terreno também estão paralisados por falta de verba, como a construção de um ginásio com arquibancada e de uma unidade de saúde. Mesmo assim, a PM planeja iniciar em 2026 a construção da nova sede do BAC, que hoje funciona junto ao 16º BPM, em Olaria.

Oficiais da reserva da Polícia Militar, ouvidos sob anonimato, se dividem quanto à continuidade das obras. Embora reconheçam a importância de investimentos em infraestrutura, apontam a escalada da violência na Maré como um entrave. “Terão que colocar agentes para policiar o quartel”, afirmou um coronel da reserva.

Especialista em gestão pública do Insper, André Luiz Marques afirma que é preciso reavaliar prioridades: “Mesmo que lá atrás tenha sido a melhor decisão, é preciso avaliar a necessidade de investimentos hoje. Se é importante, precisa tirar ontem do papel. Infelizmente é mais um exemplo da falta de planejamento público”.

Em nota enviada ao Jornal Extra, a Polícia Militar informou que o local se tornará “o maior centro de treinamento de forças policiais especiais e convencionais da América Latina”. Segundo a corporação, 400 policiais passam por capacitações semanais no terreno, e a nova sede do COE já está concluída, aguardando liberação do Corpo de Bombeiros.

Já a Secretaria de Infraestrutura e Obras confirmou que a empresa responsável foi notificada em todas as ocasiões em que irregularidades foram detectadas, mas que as falhas foram corrigidas sem necessidade de sanções. A Carletti, por sua vez, não se manifestou até o fechamento da matéria.

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