Investigações da Polícia Federal indicam que o Comando Vermelho tentou interferir diretamente no policiamento do Rio de Janeiro por meio de contatos com políticos e membros do governo estadual. As conclusões fazem parte da Operação Zargun, deflagrada em setembro, e revelam diálogos e pagamentos que apontam para uma tentativa da facção de ampliar sua influência sobre decisões estratégicas da segurança pública.
De acordo com as interceptações telefônicas obtidas pela PF, integrantes do grupo criminoso teriam mantido contato com um ex-deputado estadual, um secretário e um ex-subsecretário do governo Cláudio Castro. Um relatório anexado ao inquérito afirma que o esquema “evidencia uma profunda infiltração no sistema político e na administração pública, buscando capturar setores estratégicos do Estado para garantir impunidade e consolidar a dominação territorial”. O secretário de Defesa do Consumidor, Gutemberg de Paula Fonseca, negou qualquer envolvimento ou encontro com integrantes da facção.
As mensagens mostram que Gabriel Dias de Oliveira, conhecido como Índio do Lixão, apontado pela PF como chefe do tráfico na Favela do Lixão, em Duque de Caxias, teria se reunido com Gutemberg Fonseca para pedir “cobertura política”. A reunião, citada em conversas por WhatsApp, teria sido intermediada por Alessandro Pitombeira Carracena, ex-secretário de Esporte e Lazer e ex-subsecretário de Defesa do Consumidor. Em depoimento à PF, Carracena afirmou que soube da conversa pelo próprio Gutemberg e que não teve envolvimento em qualquer tratativa política.
Carracena também declarou que o contato entre Índio e Gutemberg teria se intensificado após sua saída do governo, no fim de 2024. Em mensagens obtidas pela investigação, Índio comenta com o ex-secretário que não insistiria em pedir ajuda ao titular da Defesa do Consumidor: “Não vou mais incomodar ele, doutor. Não posso ficar forçando ele a me ajudar se no coração dele não quer me ajudar.”
Segundo a PF, a facção também chegou a planejar uma candidatura política para Índio do Lixão em Duque de Caxias. O objetivo seria fortalecer o chamado “braço político” do Comando Vermelho, com apoio de aliados como Carracena e o ex-deputado conhecido como TH Joias. Ambos foram presos durante a operação.
Outros trechos dos diálogos interceptados revelam pedidos de alteração no policiamento da comunidade da Gardênia Azul, na Zona Oeste. Em uma conversa de janeiro de 2024, Índio pede ajuda ao deputado TH Joias para que o Batalhão de Choque fosse retirado da região e substituído por policiais do batalhão local. O parlamentar respondeu que acionaria o então secretário de governo, Carracena, e chegou a encaminhar o registro de uma ligação de mais de sete minutos sobre o assunto. Meses depois, o comando da base realmente passou para o 18º BPM, responsável por Jacarepaguá.
Em outra interceptação, TH Joias e Índio discutem o pedido de “favor” feito por Carracena para recuperar dois carros roubados em comunidades dominadas pelo CV. “Vê exato onde tá cada um. Mando devolver agora”, respondeu Índio.
As investigações ainda identificaram transferências de dinheiro entre o integrante da facção e o ex-secretário. Em uma das mensagens, Índio envia a foto de um montante de dinheiro e afirma que repassaria R$ 90 mil a TH Joias para que o valor fosse entregue a Carracena. Em depoimento, o ex-secretário admitiu ter recebido quantias de Índio, mas alegou que se tratavam de honorários advocatícios por serviços jurídicos prestados.
Por meio de nota, o secretário Gutemberg Fonseca afirmou que “desconhece qualquer tipo de reunião com a pessoa citada e não mantém, nem nunca manteve, qualquer relação pessoal, política ou institucional com o indivíduo”. Segundo ele, “caso tenha ocorrido algum contato em evento público, foi estritamente casual e sem ciência sobre eventual envolvimento ilícito.”
Já a defesa de Carracena sustentou, em petição judicial, que as acusações da PF “se baseiam apenas em conjecturas e falas de outros investigados, sem provas de que o requerente tenha fornecido informações sobre operações policiais ou recebido valores por isso”.














