Cerrado surpreende com potencial de armazenamento de carbono, superando a Amazônia em seis vezes no solo, mas enfrenta descaso em políticas ambientais.
O Cerrado, conhecido como a savana brasileira, detém um potencial surpreendente de armazenamento de carbono em seus solos, podendo guardar até seis vezes mais do que a vegetação da Amazônia por hectare. Apesar dessa capacidade crucial para mitigar as mudanças climáticas, os ecossistemas abertos como campos e savanas recebem atenção insuficiente nas políticas ambientais e nos mercados de carbono.
Uma pesquisa publicada na revista científica Plants, People, Planet, defende a inclusão desses biomas em mecanismos de financiamento climático. O estudo alerta ainda que o plantio indiscriminado de árvores em áreas naturalmente abertas pode ser prejudicial, alterando o funcionamento e a biodiversidade desses ambientes singulares.
Segundo os pesquisadores, os solos do Cerrado podem armazenar até 1.200 toneladas de carbono por hectare, um volume expressivo que demonstra a importância subterrânea deste bioma. Parte desse carbono está estocado no solo há até 20 mil anos, evidenciando a resiliência e a antiguidade desses reservatórios naturais. Conforme informação divulgada pelo estudo, os padrões e métodos atuais para mercados de carbono focam em áreas florestais, negligenciando a inclusão de campos e savanas. Isso impede que esses ecossistemas abertos sejam devidamente valorizados e incluídos em iniciativas de preservação e financiamento climático. A investigação ressalta a necessidade urgente de adaptar essas metodologias para contemplar a vasta quantidade de carbono armazenado sob a superfície.
O Carbono Invisível Sob os Pés
O biólogo Fernando Silveira, professor de ecologia da UFMG e um dos autores da pesquisa, explica que grande parte do carbono armazenado no Cerrado está escondido debaixo da terra, o que dificulta sua contabilização. Em solos hidromórficos, como veredas e campos úmidos, a decomposição microbiana é extremamente lenta.
Essa lentidão na decomposição faz com que a matéria orgânica se acumule ao longo de milhares de anos, formando um estoque significativo de carbono subterrâneo. Silveira destaca que esse armazenamento subterrâneo é mais protegido a longo prazo, oferecendo uma mitigação mais segura contra as mudanças climáticas em comparação com o carbono concentrado na vegetação visível acima do solo.
Desvalorização nas Políticas Climáticas
As metodologias atuais para calcular créditos de carbono privilegiam a biomassa visível, como troncos e galhos de árvores. Essa abordagem subestima o carbono presente nos solos e nas raízes dos ecossistemas abertos, como o Cerrado. O professor compara o Cerrado a um iceberg, onde apenas uma pequena parte é visível, enquanto a maior parte, incluindo o valioso estoque de carbono, permanece oculta e ignorada.
Para reverter essa situação, é fundamental criar e implementar metodologias capazes de medir e validar com precisão o carbono subterrâneo. O modelo atual, focado no ambiente florestal e na parte acima do solo, não é adequado para quantificar o carbono armazenado nas profundezas da terra. A inclusão desses ecossistemas abertos nas políticas climáticas é essencial para uma estratégia de combate às mudanças climáticas mais eficaz e abrangente.
Ameaças e a Lenta Recuperação do Cerrado
A conversão da vegetação nativa do Cerrado em lavouras, pastagens e áreas urbanas representa uma grave ameaça. Mais de 46% da vegetação original do bioma já foi desmatada, segundo um estudo de 2022 citado na pesquisa. Essa transformação não só libera o carbono armazenado, como também compromete estoques que levam séculos para se formar.
A recuperação de áreas de Cerrado campestre pode ser significativamente mais lenta do que a de florestas. As plantas nativas do Cerrado crescem mais devagar e possuem grande parte de sua estrutura nas raízes e em outras partes subterrâneas. Por isso, a restauração do carbono nesses ambientes pode levar muito mais tempo. Enquanto uma floresta pode recuperar sua estrutura em poucas décadas, áreas abertas de Cerrado, muitas vezes pobres em nutrientes, podem necessitar de até 800 anos para recuperar metade de sua condição original, dependendo do ecossistema específico.
Plantar Árvores Nem Sempre é a Solução Ideal
A crença de que plantar árvores é sempre benéfico para o clima precisa ser revista, especialmente em ecossistemas como campos e savanas naturais. A presença de árvores em tais ambientes não indica necessariamente recuperação ambiental, pois essas formações possuem características próprias e abrigam espécies adaptadas à alta incidência de luz solar. O plantio de árvores em locais inadequados pode alterar o bioma e prejudicar as plantas nativas do Cerrado, que necessitam de luz para sobreviver e prosperar.
O pesquisador ressalta a importância de reconhecer a diversidade de ambientes abertos, como os campos rupestres da Serra do Cipó e da Chapada Diamantina. Essas formações abrigam uma riqueza de espécies vegetais que, em algumas comparações, pode superar a encontrada em florestas. Portanto, as ações de restauração devem considerar as características originais de cada ecossistema, priorizando a proteção da vegetação nativa e o desenvolvimento de técnicas adequadas para a recuperação de áreas efetivamente degradadas, em vez de promover o plantio indiscriminado de árvores.
Cerrado: Essencial para a Segurança Hídrica do Brasil
A importância do Cerrado transcende o armazenamento de carbono. O bioma desempenha um papel central na recarga de aquíferos e no abastecimento de rios que irrigam diversas regiões do país. Conhecido como o “pai das águas”, o Cerrado está estrategicamente localizado no Planalto Central, conectando biomas brasileiros e fornecendo água essencial para diferentes partes do território nacional.
Oito das doze grandes bacias hidrográficas brasileiras têm suas nascentes no Cerrado. A destruição da vegetação nativa compromete o abastecimento e a segurança hídrica de aproximadamente 50 milhões de brasileiros, além de impactar diretamente a produção agrícola. A proteção do Cerrado exige um olhar integrado que contemple vegetação, solos, aquíferos e biodiversidade, garantindo a conexão entre os biomas brasileiros e a sustentabilidade dos recursos hídricos.













