Os botos na Baía de Guanabara voltaram a chamar atenção de pesquisadores após o registro de dois filhotes de boto-cinza nas águas do Rio de Janeiro. A aparição dos bebês renovou a esperança de cientistas que acompanham há décadas a sobrevivência da espécie na região.
Um dos filhotes tem cerca de seis meses, enquanto o outro teria no máximo dois meses. Eles foram avistados ao lado das mães em uma manhã de névoa, quando emergiram para respirar em meio ao cenário de ilhas e montanhas encobertas pela neblina.
O registro ocorreu na semana do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, e trouxe um sinal importante de vitalidade para a baía. Além dos filhotes de boto-cinza, pesquisadores também destacam a presença de baleias-jubarte, aves migratórias, tartarugas-verdes e raias de espécies ameaçadas.
A diversidade de vida marinha que se vê num único dia na baía impressiona. E não só quem mergulha. Muita coisa se vê de fora, como os botos, as tartarugas, as aves. Mesmo peixes, como as raias, são visíveis em água clara. As baleias são sensacionais. Mas a gente tem uma biodiversidade marinha magnífica na porta de casa para ver o ano todo, afirmou Ricardo Gomes, biólogo e presidente do Instituto Mar Urbano.
Para os pesquisadores, o nascimento dos filhotes tem um peso simbólico importante. O boto-cinza é uma das espécies mais associadas ao Rio de Janeiro e aparece na bandeira e no brasão do município.
Acostumado a mergulhar quase todos os dias na Baía de Guanabara, Ricardo Gomes afirmou ter se emocionado ao ver os filhotes. Segundo ele, a cena mostra que a vida ainda resiste mesmo em um ambiente marcado por pressões ambientais.
Eles são lindos. Mas não é só isso. Estamos vendo que a vida persiste. Os filhotes são esperança renovada para a nossa baía. Ela é incrível. E é surreal ver e ouvir esses animais nesse cenário de névoa, em que nada parece estar vivo, afirmou Ricardo Gomes.
Apesar da boa notícia, a situação da espécie ainda preocupa. Diferentemente das baleias, que percorrem longas distâncias, os botos-cinza são animais residentes. Eles tendem a passar a vida inteira na baía ou enseada onde nasceram.
Na Baía de Guanabara, a população parece estagnada há quase dez anos em cerca de 30 animais, segundo estudos do Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores, da Faculdade de Oceanografia da Uerj.
O Maqua acompanha e tenta preservar os botos-cinza da Guanabara há três décadas. No passado, a espécie era abundante na baía. Ao longo dos séculos, porém, os animais foram impactados pela caça, pela poluição e pela ocupação cada vez mais intensa do entorno.
Na década de 1980, restavam cerca de 400 botos. Em 1992, o número já não passava de 100. Em 2014, eram 40. Nos anos seguintes, a população caiu para cerca de 30 e não voltou a crescer de forma consistente.
O número de filhotes nascidos não tem compensado o de animais adultos mortos por doenças, acidentes ou velhice. E nem todos os filhotes sobrevivem. Por isso, cada filhote é extremamente precioso. Esperamos que esses dois nascidos este ano sobrevivam e, com eles, as chances da espécie na nossa baía, afirmou Rafael Carvalho, pesquisador do Maqua.
Entre as ameaças aos botos estão a poluição da água, a pesca acidental, as mudanças climáticas e o barulho intenso das embarcações. Segundo pesquisadores, a poluição sonora é especialmente grave porque os botos dependem de sons para se orientar.
O barulho das centenas de barcos é constante, não para nem à noite. E a poluição sonora é terrível para os botos. O problema não é só a qualidade da água, disse Rafael Carvalho.
O boto-cinza, de nome científico Sotalia guianensis, é um dos menores cetáceos do mundo. Os maiores machos costumam medir até dois metros e pesar cerca de 80 quilos. O filhote mais novo registrado na Baía de Guanabara tem aproximadamente um metro, enquanto o mais velho é um pouco maior.
Os cientistas ainda não sabem o sexo dos dois filhotes. Eles apresentam coloração mais clara e as chamadas dobras neonatais, marcas comuns em filhotes de mamíferos.
Ao contrário dos golfinhos oceânicos, os botos-cinza não costumam saltar nem acompanhar embarcações. Eles podem se aproximar por curiosidade, mas geralmente evitam contato com humanos.
Eles são tímidos e, de forma geral, evitam o contato com o ser humano, explicou Rafael Carvalho.
Na Baía de Guanabara, o grupo sobrevivente se reúne com mais frequência na região entre a Ilha de Paquetá e a Área de Proteção Ambiental de Guapimirim. A área é uma das mais tranquilas da baía, com menor tráfego de embarcações e mais distante da zona portuária.
Mesmo assim, os animais circulam por diferentes pontos. Pesquisadores já registraram botos perto da saída da baía, no Canal Central e na Ilha do Governador, inclusive por meio de monitoramento acústico noturno.
Cada baía costuma ter sua própria população de botos-cinza, e esses grupos raramente se misturam. As fêmeas dão à luz um filhote por vez, após gestação de quase um ano. O bebê permanece com a mãe por pelo menos 12 meses, e a reprodução costuma ocorrer a cada três anos.
Cada mês de vida desses filhotes é uma vitória, frisou Rafael Carvalho.
Para os cientistas, o boto é símbolo e também sentinela da Baía de Guanabara. Por estar no topo da cadeia alimentar, sua presença indica que ainda existe uma rede de vida formada por peixes, moluscos, crustáceos e plâncton.
Ao mesmo tempo, a existência de apenas cerca de 30 animais mostra que a baía ainda precisa de recuperação ambiental. A chegada dos dois filhotes anima pesquisadores, mas também reforça a urgência de medidas para proteger a espécie.
Os botos resistem. Eles são a própria Baía de Guanabara. Estão no coração da cidade. Eram abundantes. Depende de nós, humanos, que voltem a ser, afirmou Rafael Carvalho.
O nascimento dos filhotes mostra que a vida marinha ainda encontra espaço para resistir na Baía de Guanabara, mas o futuro da espécie depende da preservação do ambiente onde esses animais nasceram.














