O batistério público no Méier foi alvo de protesto na noite desta sexta-feira (2), quando grupos religiosos se reuniram na Praça Jardim do Méier, na Zona Norte do Rio, para contestar a estrutura inaugurada pela Prefeitura do Rio. O espaço, voltado ao batismo por imersão, possui uma bíblia cenográfica e uma cascata d’água, elementos que, segundo os manifestantes, caracterizam privilégio a um segmento religioso específico.
Durante o ato, fiéis cantaram, ergueram cartazes e entregaram flores nas águas do batistério. Lideranças de religiões de matriz africana, como Umbanda e Candomblé, afirmaram que a iniciativa fere o princípio da equidade religiosa e questionaram o uso de recursos públicos na obra. O grupo defendeu a retirada da bíblia cenográfica para que o espaço possa ser utilizado também por outras tradições que realizam rituais de batismo e lavagem de cabeça.
Pai Alex de Oxalá, coordenador do movimento Umbanda Rio, relembrou debates recentes sobre a presença de estruturas religiosas específicas em eventos públicos e afirmou que o tema está sob apuração do Ministério Público Federal. “A gente não tem nada contra a musicalidade de qualquer tradição religiosa. A questão são os valores envolvidos, direcionados a um tipo de comunidade. Ou seja, não existe diversidade, equidade e respeito”, disse o sacerdote.
Em outro momento, ele acrescentou que as águas são um bem comum e que o espaço, por ser público, deveria atender a todos. “As águas também são de todos. Vamos pedir que retirem a bíblia para que todos batizem seus filhos. Já que é público, tem que ser de acesso de todos”, afirmou.
O debate também trouxe à tona a contribuição histórica das religiões de matriz africana para as celebrações de fim de ano no Rio. Pai Alex citou o sacerdote Tata Tancredo como idealizador das celebrações na Praia de Copacabana e defendeu o reconhecimento dessa ancestralidade, especialmente após a recente premiação do Réveillon carioca pelo Guinness Book.
Nas redes sociais, o prefeito Eduardo Paes pediu desculpas a praticantes de religiões de matriz africana e anunciou a criação de uma estátua em homenagem a Tata Tancredo. “Peço novamente desculpas sinceras se algum post meu ofendeu praticantes dessas religiões. Vou dialogar com lideranças religiosas para construir, juntos, a melhor forma de fazer essa homenagem”, publicou.
Leonardo Mattos de Xangô, coordenador do Fórum dos Presentes de Iemanjá do Estado do Rio, criticou a ausência de políticas públicas voltadas a minorias religiosas no orçamento municipal. “A Lei Orçamentária da cidade acabou de ser votada e não tem nada para os povos de terreiro. Não é porque a maioria é cristã que 90% do orçamento da diversidade religiosa deve ir para um único grupo”, afirmou.
Andressa Oliveira, integrante do Movimento Negro Evangélico, também participou do ato e disse não haver demanda das igrejas pela construção do batistério. “Como evangélica, eu estranhei muito. Ninguém pediu um batistério para a prefeitura. Na praça não tem banheiro nem bebedouro, mas foram gastos quase 250 mil reais nisso. Se alguém passar mal pelo calor, não pode nem entrar na água. Serve para quê?”, questionou.
Para Pai Marcelo de Xangô, presidente do Instituto Carta Magna da Umbanda, a crítica central não é a existência do equipamento, mas o privilégio institucional. “Devem existir monumentos, mas não apenas de um segmento. A questão não é o batistério em si, é o privilégio dado a uma religião em detrimento de outra”, concluiu.
O tema segue em debate e deve continuar mobilizando lideranças religiosas e autoridades, em meio às discussões sobre liberdade religiosa, equidade e o uso de recursos públicos em espaços compartilhados da cidade.














