Nos últimos meses, os números do turismo argentino têm chamado atenção do mercado internacional. Enquanto o país enfrenta desafios econômicos relevantes, o setor turístico apresenta sinais claros de resiliência e estratégia: crescimento de aproximadamente 9,8% na entrada de turistas estrangeiros e, ao mesmo tempo, uma tendência de redução das viagens internacionais por parte dos próprios argentinos, que passaram a priorizar o turismo doméstico.
Esse movimento não é apenas um reflexo da economia — ele revela decisões estruturais e mudanças comportamentais que merecem ser analisadas com atenção pelo Brasil.
Primeiro, há um fator evidente: o câmbio. A Argentina se tornou um destino extremamente competitivo em termos de preço para o visitante internacional. Isso naturalmente atrai turistas em busca de custo-benefício, mas reduzir o fenômeno apenas ao câmbio seria simplificar demais a análise.
Existe uma estratégia clara de posicionamento do destino.
Buenos Aires, por exemplo, conseguiu consolidar sua imagem como uma capital cultural acessível, com forte narrativa gastronômica, experiências urbanas bem estruturadas e comunicação consistente com mercados prioritários. Há integração entre poder público, iniciativa privada e trade turístico na construção dessa narrativa.
Outro ponto importante é a valorização do turismo interno. Em momentos de instabilidade econômica, o argentino não deixou de viajar — ele mudou o destino. Esse comportamento foi incentivado por campanhas locais, facilitação de pagamentos e forte promoção das regiões nacionais. O resultado é um setor menos dependente exclusivamente do fluxo internacional e mais resiliente a crises externas.
E aqui surge uma pergunta inevitável: o que o Brasil pode aprender com isso?
Temos ativos naturais, culturais e urbanos incomparáveis, mas ainda carecemos de consistência estratégica em alguns pontos fundamentais.
O primeiro deles é o posicionamento. O Brasil ainda comunica destinos de forma fragmentada, sem uma narrativa clara e contínua que conecte experiências, cultura e identidade. O Rio de Janeiro, por exemplo, possui força global, mas poderia explorar melhor seu potencial como hub de experiências urbanas, esportivas e culturais ao longo de todo o ano — e não apenas em grandes eventos.
Outro fator é a competitividade internacional. Facilitação de entrada, conectividade aérea e clareza na experiência do turista ainda são desafios. Pequenos detalhes operacionais — como sinalização multilíngue, capacitação de equipes e integração logística — fazem enorme diferença na percepção final do visitante.
Além disso, o incentivo ao turismo doméstico no Brasil ainda poderia ser mais estratégico. Somos um país continental, mas muitas vezes o brasileiro não encontra estímulos claros para explorar destinos nacionais com a mesma facilidade com que considera viagens internacionais.
A Argentina mostra que, mesmo em cenários econômicos desafiadores, o turismo pode crescer quando há alinhamento entre narrativa, competitividade e estratégia de mercado.
O Brasil não precisa copiar modelos — mas precisa observar, aprender e adaptar.
Porque turismo não é apenas receber visitantes. É construir posicionamento, gerar confiança e transformar experiências em desenvolvimento econômico sustentável.
E quando o turismo é tratado com planejamento e visão de longo prazo, os resultados aparecem — independentemente do cenário
Bruno Mann é empresário e CEO da Brazil Connection Turismo Receptivo
*Este artigo reflete exclusivamente a opinião do autor. O conteúdo não representa, obrigatoriamente, a linha editorial do Jornal O Povo na Rua.














