Aliança entre facções selada por vídeo amplia poder do tráfico

Celsinho da Vila Vintém foi preso

Uma aliança entre facções criminosas no Rio de Janeiro teria sido formalizada por videoconferência entre dois chefes do tráfico. Segundo investigações da 32ª DP (Taquara), Celso Luís Rodrigues — conhecido como Celsinho da Vila Vintém — teria selado um acordo com Edgar Alves de Andrade, o Doca, integrante da cúpula do Comando Vermelho (CV), nos primeiros meses de 2025. A conversa tratou da cessão de territórios, proteção armada e divisão dos lucros do tráfico de drogas.

De acordo com os investigadores, a aliança foi uma tentativa de Celsinho de manter viva a facção Amigos dos Amigos (ADA), criada por ele no fim dos anos 1990. O pacto permitiria que o CV utilizasse as comunidades da Vila Vintém, em Padre Miguel, e da Vila Sapê, em Curicica, como base para operações de invasão na Zona Oeste, principalmente em Santa Cruz. Em troca, o líder da ADA receberia parte dos lucros e apoio bélico.

O delegado Marcos Buss afirmou que há evidências materiais e testemunhais da negociação. “Um acordo supostamente celebrado entre Celsinho e Doca teria ocorrido por videoconferência, na qual negociaram os termos dessa aliança”, declarou em entrevista coletiva, na última quinta-feira. Segundo ele, a investigação aponta que traficantes do CV executaram milicianos que resistiram à entrada do grpo nas comunidades dominadas por Boto.

Ainda segundo a Polícia Civil, a mesma investigação já havia apontado o envolvimento do miliciano André Costa Barros, conhecido como Boto, atualmente preso em penitenciária federal. Ele teria arrendado a Vila Sapê para a ADA. A movimentação da facção na região veio à tona após a prisão de oito homens, em fevereiro, flagrados com drogas embaladas com o símbolo da ADA. Durante a abordagem, relataram que atuavam a mando de Celsinho.

O levantamento mais recente do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (UFF), publicado em 2023, indicou que a ADA foi a única facção a perder território de forma significativa nos últimos 16 anos. A queda foi de 75,8%. A aliança com o CV e até com milicianos seria, para a polícia, uma tentativa de reverter esse enfraquecimento e retomar o controle em áreas estratégicas.

Celsinho foi preso na última quinta-feira por policiais civis da 32ª DP, em sua residência na Vila Vintém. Ele estava em liberdade desde 2022, após cumprir 25 anos de pena. A Justiça decretou sua prisão temporária, e ele foi levado à Cidade da Polícia, no Jacaré. Na chegada, negou envolvimento com o crime e afirmou ser empresário no ramo de carnes suínas.

O advogado Max Marques, que defende o acusado, contestou a versão da polícia. “Ele não participa de qualquer atividade criminosa, tendo se dedicado ao acompanhamento do tratamento médico de sua esposa, que está com câncer em estágio bem avançado. Mais uma vez a Polícia Civil faz uma espetacularização em cima do nome do senhor Celso com inverdades que serão desmascaradas pela defesa em juízo”, afirmou o defensor.

Durante audiência de custódia realizada na Central de Custódia de Benfica, a Justiça decidiu manter a prisão temporária. Em seguida, o suspeito foi transferido para o Complexo de Gericinó, na Zona Oeste da cidade.

A polícia afirma que, mesmo fora do sistema prisional, Celsinho manteve-se no comando da ADA e atuava para ampliar o domínio da facção. Além dele, também tiveram prisão decretada Edgar Alves de Andrade, o Doca, que está foragido, e André Costa Barros, o Boto, já recolhido em presídio federal. Todos são acusados de tráfico de drogas e associação para o tráfico.

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