No campo da filosofia política, poucos autores lograram sistematizar com tamanha agudeza os elementos essenciais da arte de governar como Nicolau Maquiavel, o Mestre de Florença.
Sua obra seminal, *Il Principe*, permanece como fonte inextinguível de reflexão sobre o poder, a autoridade e a razão de Estado. E é à luz dessa doutrina política florentina que se deve analisar a recente e emblemática decisão do Governador em exercício do Estado do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar, ao exonerar o Secretário de Transportes Washington Reis.
Tal medida não se afigura como mero ato administrativo: constitui, antes, gesto soberano, impregnado de virtù e de elevada racionalidade institucional. Ao assim proceder, Bacellar inscreve-se como discípulo dileto do pensamento florentino, ao conjugar autoridade, prudência e oportunidade — três pilares cardeais da boa governança segundo os cânones renascentistas.
I – Virtù: a excelência política como prerrogativa do governante*
Na tradição política de Florença, a *virtù* do governante é a qualidade que o habilita a agir com firmeza, inteligência estratégica e domínio das circunstâncias. Rodrigo Bacellar, ao ocupar interinamente o posto de Chefe do Executivo estadual, demonstrou possuir tal virtude em grau elevado.
Longe de se comportar como um substituto protocolar, assumiu com plenitude o ônus e as prerrogativas do cargo, e não hesitou em cortar um nó que ameaçava a coesão governamental.
A exoneração de Washington Reis, publicada em edição extraordinária do Diário Oficial, foi um ato de afirmação institucional. Denunciando abertamente a insubordinação do ex-secretário, Bacellar revelou compreender que o silêncio, nesses casos, equivale à anuência, e que a omissão pode ser mais deletéria que o confronto.
II – A pedagogia do temor: a necessidade da autoridade*
Nos ensinamentos do florentino, o governante prudente deve prezar mais por ser temido do que amado, se não puder sê-lo em simultâneo. Isso porque o temor gera respeito, enquanto o afeto é volúvel e instável.
A ação firme de Bacellar — adotada sem hesitações nem concessões — demonstra sua compreensão dessa máxima clássica: o poder, para ser eficaz, precisa ser respeitado.
A autoridade, especialmente quando exercida de forma transitória, só se consolida quando revestida de gestos claros, inequívocos e simbólicos. Ao destituir um aliado influente por indisciplina pública, Bacellar não apenas preservou a hierarquia do governo, mas emitiu um sinal pedagógico aos demais auxiliares: o respeito à liderança não é facultativo, mas imperativo.
III – Fortuna e tempo político: a leitura da ocasião*
O Mestre de Florença sustentava que a fortuna — a sorte, o acaso — rege parte das ações humanas, mas que cabe ao homem prudente dominá-la e moldá-la a seu favor. A ausência do Governador titular ofereceu a Rodrigo Bacellar uma brecha temporal. Com apurada sensibilidade política, ele converteu esse intervalo em ação decisiva.
> “A fortuna é como um rio impetuoso, que arrasta tudo quando transborda. Mas quando está calma, os homens podem erguer diques. (Il Principe*, cap. XXV)
Foi exatamente o que Bacellar fez: aproveitou a calmaria institucional para construir seus diques de autoridade, demonstrando aptidão para governar e discernimento para agir no tempo certo — qualidade rara nos quadros políticos contemporâneos.
IV – A razão de Estado: o bem comum acima dos afetos
A doutrina florentina da razão de Estado, decantada ao longo dos séculos a partir das reflexões de Maquiavel, impõe ao governante a supremacia do interesse público sobre quaisquer lealdades privadas.
A permanência de um secretário conflagrado com a cúpula governamental, sob risco de comprometer a estabilidade da gestão, representava ameaça à harmonia do Executivo.
Rodrigo Bacellar, fiel aos preceitos do bem comum, não hesitou em suprimir a fonte de ruído político. Sua decisão preservou a unidade do governo, a autoridade da função executiva e a liturgia do cargo. E o fez mesmo ao custo de contrariar aliados tradicionais — pois, como ensina o Mestre de Florença, “a necessidade justifica a ação de um príncipe prudente”.
A política como expressão da virtude ativa
A decisão de Rodrigo Bacellar é exemplar sob todos os aspectos.
Exerceu a autoridade sem autoritarismo, impôs ordem sem truculência e afirmou liderança sem presunção. Demonstrou ser mais que um gestor: revelou-se um estadista. E, acima de tudo, demonstrou-se profundo conhecedor — ainda que intuitivo — dos ensinamentos do maior teórico da política realista que a civilização ocidental produziu: Nicolau Maquiavel.
Com tal gesto, Bacellar não apenas solucionou uma crise pontual, mas projetou sua imagem como figura de comando e firmeza — um princeps in actu, como diriam os antigos.
Um homem de governo que, ao agir com coragem e discernimento, honra a tradição da política enquanto ciência da decisão. E que, com sua conduta, prova que os ecos de Florença ainda ressoam nos palácios de governo do século XXI.
Em tempo, Maquiavel foi orientador do Filho de um Rodrigo real, o filho do Papa Rodrigo Borgia, conhecido como Sixto VI. O livro e os ensinamentos foi escrito para o Principe Cesar Borgia, um dos mais importantes homens e políticos do sec XV.














