Atletas de alta performance: como o treino intenso pode impactar a fertilidade e os hormônios femininos?
Um programa de subsídio para congelamento de óvulos anunciado pela Federação Espanhola de Futebol para jogadoras e árbitras reacendeu a discussão sobre os efeitos do esporte de alto rendimento na fertilidade feminina. A intensa demanda física, combinada com baixo percentual de gordura corporal, pode ser um fator determinante na capacidade de engravidar.
Especialistas apontam que a redução do tecido adiposo interfere diretamente na produção hormonal. Quando o corpo possui pouca gordura, a produção de estrogênio é alterada, o que pode levar a irregularidades na ovulação. Esse cenário é mais comum em modalidades que exigem grande esforço e mantêm um baixo índice de gordura, como corrida, ginástica e dança.
A amenorreia, ausência de menstruação associada ao esforço físico, é uma resposta adaptativa do organismo ao alto gasto energético e às exigências do treinamento. Esse desequilíbrio hormonal, especialmente em mulheres com muita massa muscular e baixo percentual de gordura, pode afetar tanto o ciclo menstrual quanto a fertilidade. Conforme explica o ginecologista Claudio Severino Jr., do Hospital Samaritano Higienópolis, o corpo pode reagir com ciclos mais longos, menor fluxo menstrual ou até mesmo a interrupção da menstruação, funcionando como um mecanismo de defesa, como informado em reportagem do Metrópoles.
Amenorreia e a carga de treino em atletas
A amenorreia relacionada ao esforço físico ocorre quando o corpo se adapta às demandas extremas do treinamento. Esse quadro é mais prevalente em atletas de elite, que seguem rotinas rigorosas de treino, com alimentação controlada e pouco tempo para recuperação. A endocrinologista Roberta Frota, do Hospital Nove de Julho, explica que essas alterações hormonais são mais comuns em mulheres com alta massa muscular e baixo percentual de gordura, afetando o ciclo menstrual e a fertilidade.
O fenômeno foi inicialmente observado em bailarinas, que frequentemente apresentavam ausência de menstruação durante períodos de treinamento intensivo. O estresse físico, a dieta restritiva e a rotina exigente são fatores que contribuem para essas alterações hormonais, segundo Severino Jr. Ele ressalta que o baixo percentual de gordura corporal impacta diretamente a produção de estrogênio, levando à ovulação irregular.
Reversibilidade e planejamento para a gravidez
Apesar das alterações hormonais, a situação geralmente é reversível. Muitas atletas ajustam suas rotinas quando desejam engravidar, sabendo que o treino intenso pode comprometer a ovulação. A endocrinologista Roberta Frota menciona que algumas atletas pausam os treinos por alguns meses para tentar conceber. Após a redução da carga de treino e a reorganização da rotina, o ciclo menstrual tende a normalizar-se, facilitando a gestação.
A volta do ciclo menstrual ao normal e a retomada da ovulação são passos cruciais para a fertilidade. Com o equilíbrio entre a vida esportiva e as necessidades reprodutivas, a gravidez torna-se uma possibilidade real para essas atletas.
Outros fatores que influenciam a fertilidade
É importante notar que alterações no ciclo menstrual não se restringem a atletas de alta performance. Mulheres fora do esporte também podem experimentar essas mudanças, especialmente em casos de restrição alimentar severa ou perda acentuada de gordura corporal. Dietas muito restritivas, sem acompanhamento profissional, podem causar desequilíbrios hormonais semelhantes, e a combinação com exercícios intensos pode agravar o risco.
Condições como a anorexia nervosa também estão associadas à interrupção da menstruação, devido ao mesmo mecanismo de defesa do organismo. A alimentação inadequada, por si só, pode desregular o ciclo menstrual, e quando somada ao exercício físico intenso, o risco para a fertilidade aumenta significativamente, como aponta o ginecologista Claudio Severino Jr.
O equilíbrio como chave para a saúde reprodutiva
Para os especialistas, a relação entre alta performance esportiva e fertilidade não é direta nem inevitável, mas depende do equilíbrio entre treino, nutrição e recuperação. O acompanhamento médico e nutricional é fundamental para prevenir alterações hormonais significativas e garantir a saúde reprodutiva, especialmente para atletas que planejam ter filhos no futuro. Manter um estilo de vida saudável e equilibrado é essencial para o bem-estar geral e a capacidade reprodutiva.













