Tráfico formiguinha no Rio usa mulheres para transportar armas e drogas

Ana Lúcia e Fhilip,

O tráfico formiguinha no Rio tem utilizado mulheres para transportar armas e drogas em pequenas quantidades, como forma de tentar driblar a fiscalização policial. A estratégia consiste em fracionar carregamentos e enviá-los separadamente, muitas vezes por meio de ônibus interestaduais, reduzindo o risco de grandes apreensões de uma só vez.

Em uma das ocorrências registradas na Rodoviária do Rio, uma mulher foi abordada por agentes do Batalhão de Polícia de Turismo (BPTur) enquanto carregava duas malas. Durante a revista, os policiais encontraram um fuzil e dois carregadores escondidos entre os pertences. Segundo a investigação, o material teria como destino uma comunidade da Zona Sul dominada por facção criminosa.

Casos como esse se repetiram ao longo do último ano. Dados do BPTur indicam que, em dez ocorrências envolvendo transporte de armas na rodoviária, sete resultaram na prisão de mulheres. Quando também são considerados casos de transporte de drogas, o número de registros sobe para 41 ocorrências, sendo 31 delas com mulheres presas — cerca de 76% do total.

O aumento da participação feminina nesse tipo de crime foi analisado em estudo publicado na Revista de Inteligência de Segurança Pública, vinculada à Escola de Inteligência da Polícia Civil. A pesquisa avaliou prisões em flagrante entre 2019 e 2023 e apontou que 65% das mulheres presas tinham entre 18 e 24 anos, além de baixa escolaridade.

Segundo o levantamento, muitas são recrutadas com a promessa de ganhos rápidos, recebendo valores que variam entre R$ 1 mil e R$ 2 mil para realizar o transporte interestadual. A escolha de mulheres, de acordo com especialistas, parte da percepção de que despertariam menos suspeitas em fiscalizações.

Em novembro do ano passado, outra operação interceptou um ônibus que vinha de São Paulo. Em caixas de almofadas estavam escondidas 30 pistolas calibre 9 mm e dezenas de carregadores. A responsável pela bagagem teria informado informalmente que receberia R$ 2 mil pelo transporte.

Especialistas apontam que, embora o transporte seja o papel mais comum, há casos em que mulheres ocupam funções estratégicas na logística e na intermediação de negociações de armas e drogas. Investigações recentes revelaram atuação feminina em acordos de grande porte, incluindo contatos com fornecedores em regiões de fronteira.

As apurações indicam que o modelo do tráfico formiguinha no Rio busca diluir riscos e manter o abastecimento contínuo das facções, mesmo diante de operações policiais frequentes. A fragmentação das cargas dificulta a identificação de grandes remessas e amplia a complexidade das investigações.

Com o avanço dessa estratégia, forças de segurança reforçam o monitoramento em rodoviárias e postos de fiscalização, enquanto especialistas alertam para a necessidade de políticas preventivas voltadas ao recrutamento de jovens em situação de vulnerabilidade.

O crescimento desse modelo mostra como o crime organizado se adapta às ações de repressão, transformando rotas e perfis de transporte para manter o fluxo ilegal ativo no estado.

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