As mulheres procuram a rede de saúde quase duas vezes mais que os homens para consultas eletivas no Rio. Levantamento da Hapvida, realizado entre outubro de 2025 e setembro deste ano, com mais de 515 mil atendimentos, mostra que elas respondem por 64,24% das consultas agendadas, enquanto os homens representam 35,75%. A diferença começa a se acentuar a partir dos 19 anos.
De acordo com os números, quase dois terços dos atendimentos foram realizados por mulheres. 331,3 mil atendimentos femininos (64,24%) contra apenas 184,3 mil masculinos (35,75%). A diferença representa um volume de 147 mil atendimentos a mais para elas, estabelecendo uma proporção prática de 1,8 atendimento feminino para cada consulta realizada por um homem.
Os dados também revelam que a maior concentração de buscas por consultas está na população adulta, com a faixa de 30 a 59 anos, reunindo 56,09% do total de procedimentos. No ranking de especialidades mais procuradas, a ginecologia clínica liderou com 65.652 atendimentos, seguida por Ortopedia e Traumatologia (57.303), Cardiologia (56.701), Clínica Geral (52.989) e Pediatria (52.986). A Urologia, principal especialidade focada na saúde preventiva masculina, somou apenas 24.533 atendimentos no período.
Ruptura aos 19 Anos e prevenção
Um dos pontos mais críticos evidenciados pelo estudo é o afastamento masculino dos consultórios a partir dos 19 anos. A explicação pode estar com a chegada da maioridade. Os pais e responsáveis possuem essa função durante a infância e na adolescência, eles percebem os sintomas, marcam as consultas e acompanham os exames. Ao atingir a idade adulta, essa estrutura protetora se dissolve, exigindo uma autonomia para a qual muitos homens não foram completamente educados.
Desafio da saúde masculina
Para entender por que os homens adiam a ida ao médico, o levantamento destaca uma combinação de fatores culturais, psicológicos e estruturais:
• A cultura do “quem procura, acha”: Adiar exames de rotina funciona como uma tentativa de preservar uma falsa sensação de controle ou evitar possíveis diagnósticos.
• Conflito com a rotina de trabalho: O papel social do homem como “provedor” cria uma barreira concreta em relação ao horário comercial dos atendimentos eletivos.
• Falta de habituação na juventude: O homem atravessa a juventude sem uma especialidade médica de referência, o que dificulta a criação de um hábito preventivo na vida adulta.
• Barreiras na Saúde Mental: O sofrimento emocional masculino costuma ser negligenciado ou mascarado na forma de irritabilidade, isolamento e estresse.
“Na infância e na adolescência, boa parte do cuidado ainda é organizado pela família. Quando se entra na vida adulta, essa estrutura vai diminuindo e ele precisa assumir sozinho uma responsabilidade que talvez nunca tenha aprendido de fato. Ele ganha independência, mas isso não necessariamente vem acompanhado de uma relação mais madura e atenta com o autocuidado”, avalia a psicóloga da Hapvida, Lua Helena.
A profissional explica ainda que a resistência dos homens em realizar exames de rotina também está relacionada ao receio de descobrir um problema de saúde e precisar mudar a própria rotina. Para muitos, adiar a consulta ou o exame acaba sendo uma forma de evitar esse confronto. “Enquanto não faço o exame, ainda consigo imaginar que está tudo bem. Um resultado pode significar tratamento, mudança de hábito, gasto, preocupação e uma alteração concreta na vida que estava funcionando até ali. O problema é que, na saúde, esperar o corpo obrigar você a parar costuma ser justamente o contrário da prevenção”, revela.
Outro fator importante que contribui para o número reduzido do comportamento masculino diante dos cuidados com a saúde também é a busca de maneira tardia dos serviços médicos. Segundo o urologista Eduardo Velasquez, mudar essa cultura passa por combater a ideia de que procurar ajuda médica é sinal de fragilidade.
“Infelizmente o homem ainda tem a tendência de procurar o médico apenas quando o sintoma se torna incapacitante. Precisamos desmistificar a ida aos serviços de saúde e romper com o estigma de que cuidar da saúde afeta a masculinidade. O diagnóstico precoce é o fator decisivo para o sucesso do tratamento de diversas patologias. Cuidar de si é um ato de maturidade, responsabilidade e amor com a própria família”, esclarece o especialista.
Prevenção desde a juventude feminina
Já na avaliação do ginecologista Clayton Fortunato Filho, a diferença na frequência de atendimento os dois gêneros também podem ser explicados pela forma como o cuidado com a saúde é incorporado desde a juventude feminina. No caso delas, a rotina de acompanhamento médico tende a começar mais cedo e se manter ao longo da vida.
“A mulher constrói a cultura da prevenção desde a juventude. O acompanhamento ginecológico regular começa cedo e se consolida como uma rotina ao longo de todas as fases da vida adulta. Essa proximidade habitual com o sistema de saúde não apenas previne doenças complexas, mas também fortalece o autocuidado e a percepção precoce dos sinais do próprio corpo”, explica.
Os especialistas ressaltam ainda que culpar individualmente o homem não resolve o problema. A solução exige uma mudança estrutural no sistema de saúde e nas empresas, com horários flexíveis e programas de saúde do trabalhador. Para familiares e parceiros (as), a orientação é ajudar a viabilizar o primeiro passo sem assumir a responsabilidade permanente por outro adulto: apoiar é facilitar o caminho, mas a autonomia do cuidado precisa ser do próprio indivíduo.















