Morre Adão Arezo aos 80 anos, criador do lendário Buraco da Lacraia

Morreu aos 80 anos o empresário Adão Arezo, fundador do Buraco da Lacraia, endereço histórico da boemia LGBTQIA+ no Centro e na Lapa. A morte foi confirmada por amigos e artistas parceiros nesta segunda-feira (29).

Ícone da resistência e da diversidade na noite carioca

O anúncio da despedida de Adão Arezo provocou forte comoção entre artistas, frequentadores e militantes da cena cultural carioca. O ator e diretor Sidnei Oliveira, amigo de longa data do empresário, usou as redes sociais para prestar uma homenagem e relembrar a relevância do espaço construído por Adão ao longo de mais de três décadas.

O projeto nasceu quase por acaso no ano de 1987, na Cinelândia. Adão planejava abrir uma casa de vídeo-bingo sob o nome de Arezo’s Bar. No entanto, uma mudança na legislação proibiu esse tipo de jogo, forçando o comerciante a mudar os planos de forma imediata para não perder o ponto alugado no subsolo.

O início foi modesto e totalmente improvisado, contando apenas com uma máquina de música por ficha, duas mesas de sinuca e algumas cervejas servidas em uma caixa de isopor. Por ficar escondido e protegido dos preconceitos da época, o local foi rapidamente ocupado pelo público gay da região central.

A clientela logo rebatizou o subsolo de Buraco do Adão. Com o tempo, as curvas do corredor de acesso inspiraram o apelido que virou marca oficial: Buraco da Lacraia. Da Cinelândia, a casa noturna transferiu seu endereço definitivo para a Rua André Cavalcanti, na Lapa, onde consolidou sua fama entre trabalhadores, estudantes e boêmios.

Como a casa virou polo cultural independente

O Buraco da Lacraia nunca funcionou apenas como uma boate comum. A casa misturava videokê, shows de drag queens, pista de dança, sinuca, totó e performances com liberdade irrestrita de expressão e convivência comunitária.

Em 2012, o endereço abriu as portas para um dos projetos mais aclamados do teatro independente carioca: o Buraco da Lacraia Dance Show. Criado pelos artistas Eber Inácio, Letícia Guimarães, Luis Lobianco, Patrícia Pinho e Sidnei Oliveira, o projeto previa inicialmente apenas quatro apresentações. Adão bancou o risco comercial da proposta e o espetáculo permaneceu em cartaz por anos seguidos com casa cheia.

Para a classe artística, a generosidade de Adão era ponto fora da curva no mercado da noite. O empresário costumava receber o elenco em mesas fartas de café e pão com mortadela, tratando a equipe técnica e os atores como parte da própria família.

O impacto do fechamento definitivo na Lapa

A trajetória da casa noturna encontrou seu ponto final em 2020, durante a crise sanitária da pandemia de Covid-19. As restrições de funcionamento para conter a circulação do vírus e a perda de renda inviabilizaram os custos de manutenção do imóvel na Lapa.

Na ocasião do encerramento das atividades, Adão destacou a dor de ver o negócio fechar sem alternativas viáveis. Ele definia seu estabelecimento como um ponto de calor humano, feito para as pessoas se esbarrarem sem julgamento. O encerramento deixou uma lacuna evidente na oferta de lazer seguro para o público queer no Centro.

Com a confirmação do falecimento do fundador, a causa da morte e os detalhes sobre velório e sepultamento não haviam sido divulgados até a publicação desta reportagem pelos familiares. A memória do comerciante, no entanto, permanece ligada à história da tolerância e da boemia do Rio de Janeiro.

Onde buscar acolhimento e memória LGBTQIA+ no Rio

A herança deixada por Adão Arezo reforça a importância de equipamentos culturais e redes de suporte voltadas à comunidade de lésbicas, gays, bissexuais e pessoas trans em território fluminense. Quem busca suporte social, proteção jurídica ou orientação institucional no Rio de Janeiro pode recorrer a órgãos públicos especializados.

O Programa Rio Sem LGBTIfobia, mantido pelo Governo do Estado, oferece atendimento gratuito por meio de psicólogos, assistentes sociais e advogados. O contato para agendamentos e denúncias de discriminação pode ser feito pelo Disque Cidadania LGBT através do telefone 0800-023-4567, com ligação gratuita.

Na capital, a Secretaria Municipal de Assistência Social e a Coordenadoria de Diversidade Sexual também mantêm centros de referência para assistência imediata. Informações sobre serviços municipais e denúncias contra preconceito na cidade podem ser acionadas a qualquer hora pela Central 1746 da Prefeitura do Rio.

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