A inteligência artificial pode organizar a viagem, mas não pode vivê-la por nós

Existe uma diferença entre planejar uma viagem e viver uma viagem. A primeira parte pode ficar cada vez mais fácil com a ajuda da tecnologia. A segunda continua dependendo daquilo que nenhum aplicativo consegue reproduzir por completo.

A inteligência artificial já entrou na rotina do turismo. Hoje, muita gente usa ferramentas digitais para pesquisar destinos, montar roteiros, comparar preços, traduzir informações, encontrar restaurantes e até descobrir experiências que combinam com seus interesses. Em poucos segundos, é possível pedir sugestões para uma viagem romântica, uma escapada de descanso ou um roteiro para quem gosta de história, natureza e gastronomia.

Isso mostra que a inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante. Ela já está sendo usada por viajantes e empresas em diferentes etapas da jornada. Uma pesquisa da Phocuswright apontou que 39% dos viajantes norte americanos já utilizavam alguma ferramenta de inteligência artificial para pesquisar ou planejar viagens no segundo semestre de 2025.

No turismo, essa transformação também aparece nos bastidores. Hotéis conseguem entender melhor o comportamento dos hóspedes. Companhias aéreas usam dados para prever a procura por determinados voos. Agências e empresas de receptivo podem oferecer sugestões mais personalizadas. O atendimento ganha velocidade e algumas tarefas repetitivas deixam de ocupar tanto tempo das equipes.

Na minha visão, o grande avanço está na possibilidade de tornar a viagem mais adequada para cada pessoa. Durante muito tempo, o turismo trabalhou com pacotes prontos e perfis muito amplos. Agora, a tecnologia ajuda a perceber que cada viajante tem um ritmo, um orçamento e uma maneira diferente de aproveitar um destino.
Tem gente que quer conhecer os principais pontos turísticos. Tem gente que prefere um bairro tranquilo, uma boa conversa, uma feira local ou um restaurante fora do circuito mais conhecido. A inteligência artificial consegue cruzar muitas informações e apresentar possibilidades que talvez não aparecessem em uma busca tradicional.

Mas é justamente nesse momento que precisamos ter cuidado. Um roteiro bem organizado não garante uma boa viagem. A ferramenta pode indicar o lugar certo, mas não conhece completamente o sentimento de quem está viajando. Pode sugerir um restaurante bem avaliado, mas não sabe se aquele ambiente combina com a pessoa que está sentada à mesa. Pode apresentar uma lista de atrações, mas não entende o valor de uma descoberta inesperada.

Também existe o risco de confiar demais em respostas automáticas. A inteligência artificial pode errar, criar informações que não existem ou deixar de considerar detalhes importantes. Uma viagem envolve dinheiro, tempo e expectativa. Por isso, tecnologia sem conferência pode transformar praticidade em problema.

Outro ponto importante é a privacidade. Para oferecer sugestões cada vez mais personalizadas, os sistemas precisam lidar com uma grande quantidade de dados. Informações sobre hábitos, preferências, deslocamentos e consumo precisam ser tratadas com responsabilidade. O viajante também deve saber quando está conversando com uma pessoa e quando está sendo atendido por uma máquina.

No turismo receptivo, a tecnologia pode ajudar muito, mas não substitui o olhar humano. É a pessoa que percebe quando o visitante está cansado, quando uma família precisa mudar o ritmo do passeio ou quando uma experiência simples pode se tornar o momento mais marcante da viagem.

A tendência é que os chamados agentes de inteligência artificial avancem ainda mais. Eles poderão pesquisar, comparar e até fazer reservas em nome do viajante. Os hotéis também devem ficar mais conectados, com serviços automatizados e soluções voltadas para conforto, acessibilidade e economia de tempo.

Mesmo assim, acredito que o futuro do turismo não será feito apenas de máquinas mais inteligentes. Será feito por empresas e profissionais que souberem usar a tecnologia sem perder a sensibilidade.

Viajar continua sendo encontrar pessoas, experimentar sabores, observar paisagens e sair um pouco da rotina. A inteligência artificial pode ajudar a escolher o caminho. Pode facilitar decisões e abrir novas possibilidades. Mas o frio na barriga antes do embarque, a surpresa diante de um lugar bonito e a história que levamos para casa continuam sendo experiências humanas.

E talvez essa seja a melhor forma de enxergar a tecnologia no turismo. Não como uma substituta para aquilo que sentimos, mas como uma ferramenta para que possamos aproveitar ainda melhor o mundo que existe fora da tela.

Bruno Mann é empresário e CEO da Brazil Connection Turismo Receptivo

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