A guerra do crime no Rio de Janeiro tem ultrapassado fronteiras e atingido até os hospitais públicos. Em menos de um mês, três invasões envolvendo facções criminosas e milicianos colocaram pacientes e profissionais de saúde em risco. Nenhum dos episódios foi esclarecido até o momento pela Polícia Civil.
De acordo coma matéria do portal Agenda do Poder, o caso mais recente ocorreu na última terça-feira (30) na UPA de Costa Barros, na Zona Norte. Criminosos armados invadiram a unidade em busca de rivais feridos durante confrontos entre o Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro, que disputam o controle das favelas do Chapadão e da Pedreira. A ação foi registrada por vídeo sem que os invasores percebessem.
Nas imagens, é possível ouvir um dos criminosos gritando “Vai morrer!” enquanto interrogava pacientes. Um homem, assustado, responde: “Eu sou trabalhador!” — antes de uma profissional de saúde intervir: “Não tem baleado aqui. Respeita os profissionais.” Mesmo assim, dois pacientes foram levados pelos criminosos e liberados em seguida, após constatarem que não eram traficantes rivais.
A UPA de Costa Barros foi fechada por tempo indeterminado, e seus profissionais foram remanejados. Apenas neste ano, a unidade recebeu 78 pessoas baleadas — um aumento de 69,5% em relação a 2024. Em 2023, o número era de apenas 28. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, mais de 700 atendimentos já foram suspensos devido à violência.
O secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz, usou as redes sociais para denunciar o risco constante vivido pelos profissionais. “Profissionais de saúde e pacientes não podem viver sob esse risco permanente”, escreveu, após relatar também o segundo sequestro de uma ambulância em menos de uma semana.
Outro episódio grave ocorreu em 18 de setembro, quando oito milicianos armados invadiram o Hospital Municipal Pedro II, em Santa Cruz, na Zona Oeste. O grupo, fortemente armado e usando coletes da Polícia Civil, entrou na unidade para executar um paciente baleado em confronto. Imagens de câmeras de segurança mostram que os invasores usavam luvas médicas e permaneceram no hospital por cerca de sete minutos antes de fugirem.
Em outro caso, no dia 27 de setembro, a janela do quinto andar do Hospital Federal do Andaraí foi atingida por tiros durante uma troca de tiros entre facções. O episódio ocorreu pouco depois da visita do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, à unidade. Um vídeo gravado nas redondezas mostrou o assassinato de um homem em plena luz do dia, com diversos disparos à queima-roupa.
Os ataques revelam a escalada da guerra do crime e o colapso da sensação de segurança mesmo em locais destinados à proteção da vida. Para especialistas, as invasões indicam que facções e milicianos estão expandindo o território de confronto, colocando toda a rede de saúde sob ameaça constante.
A Câmara Municipal do Rio analisa um projeto de lei que prevê a presença obrigatória de vigilantes em unidades de saúde, medida que tenta reduzir os riscos de novos episódios. Enquanto isso, profissionais e pacientes seguem vivendo sob tensão, em meio a uma guerra que transformou os hospitais em zonas de conflito.














