Erosão na Praia da Macumba preocupa moradores e transforma cenário da orla do Rio

Erosão na Praia da Macumba

O avanço da erosão na Praia da Macumba tem mudado a paisagem e causado preocupação entre moradores e frequentadores da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Parte da areia da praia parece ter sido “sugada” pelo mar, criando um desnível perceptível entre a calçada e a faixa litorânea. O fenômeno, que se repete a cada ressaca, é resultado de um processo natural agravado por intervenções humanas mal planejadas.

De acordo com especialistas, construções erguidas há cerca de duas décadas sobre áreas de restinga — vegetação essencial para absorver o impacto das ondas — contribuíram para acelerar o desgaste. Desde então, já foram registrados ao menos sete desmoronamentos de estruturas como calçadas, ciclovias e rampas.

A geóloga marinha Renata Rebouças, professora da Faculdade de Oceanografia da UERJ, explica que as medidas adotadas até agora não surtiram efeito. “Criaram um calçadão sobre a restinga, um projeto muito mal-sucedido. Depois instalaram geobags, que contêm o avanço do mar, mas devolvem a força das ondas. A areia que foi submersa dificilmente retorna à praia, o que provoca essa perda constante,” afirma.

Moradores antigos relatam que o problema se agravou nos últimos anos. “Em 2017, o mar levou um pedaço da ciclovia. Quando a maré está muito alta, chega até a calçada. A prefeitura colocou barreiras, mas não adianta,” conta Maria de Fátima Araújo, moradora local. Outras frequentadoras, como Neuza Mattos e Iara Rocha, dizem que precisaram mudar o ponto onde costumam ficar. “Antes ficávamos em frente ao clube, mas lá já não tem mais areia,” relata Iara.

A situação se repete desde meados de outubro, com o nível de areia diminuindo visivelmente. Para Neuza, a recuperação natural, que costumava ocorrer em poucos dias, está demorando mais. “Geralmente, a areia volta rápido, mas dessa vez está complicado,” comenta.

Outro fator que intensificou a erosão é a dragagem no canal de Sernambetiba. Segundo a professora Rebouças, parte da areia deslocada durante as marés acaba sendo levada para dentro do canal, sem retorno à praia. “Quando ocorre a dragagem, o volume de areia devolvido não é o mesmo, e isso afeta o equilíbrio da costa,” explica.

O barraqueiro Fernando de Oliveira, que trabalha há 20 anos na região, confirma que a situação atual é atípica. “Já era para a areia ter voltado. Foi demais dessa vez,” diz, preocupado.

Segundo a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima, existem 12 módulos de restinga ao longo da orla da Macumba, totalizando cerca de 650 metros de extensão. No entanto, as áreas mais atingidas pela erosão são justamente as que não contam com essa proteção natural. A pasta informou que está estudando soluções técnicas e investindo na recomposição da vegetação nativa.

Para Rebouças, qualquer intervenção deve ser baseada em análises detalhadas. “É preciso realizar um estudo oceanográfico completo antes de propor soluções. Sem modelagem das ondas e histórico de intervenções, o risco é criar novos problemas,” alerta a especialista. Ela cita o caso de Itajaí (SC), onde o engordamento artificial das praias acabou provocando inundações.

A geóloga defende o uso de soluções baseadas na natureza, como a recuperação das restingas e a recomposição de ecossistemas costeiros. “A natureza oferece serviços de proteção muito mais eficientes. O caminho é respeitar essas dinâmicas e adaptar as cidades, não o contrário,” conclui.

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