CV cria “Diretor de Governança”: Chefes do Rio controlam conflitos e trégua com PCC em todo o país

Carros da Polícia Civil.

Polícia Civil desvenda nova estrutura do Comando Vermelho com “diretor de governança” atuando nacionalmente

Uma série de conversas interceptadas pela Polícia Civil expõe uma faceta surpreendente da organização do Comando Vermelho (CV). A facção parece ter estabelecido uma estrutura de liderança mais centralizada, com chefes do Rio de Janeiro exercendo influência direta sobre as operações e conflitos em diversas partes do Brasil.

A investigação aponta para a figura de um criminoso conhecido como “Samurai”, que, mesmo preso, atua como um “diretor de governança” para mediar disputas internas e externas, incluindo negociações de trégua com rivais como o PCC. Essa nova dinâmica revela uma evolução no organograma do CV.

Essa centralização de poder, segundo investigadores, foi facilitada pelo maior contato entre membros de diferentes estados, muitos deles buscando refúgio em favelas cariocas. As informações foram divulgadas pelo Extra, que teve acesso ao relatório da Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro (DCOC-LD).

Samurai, o Mediador Encarcerado do CV

Em fevereiro de 2025, pouco após um acordo de trégua entre o CV e o PCC, um criminoso de Rondônia entrou em contato com Edgar Alves de Andrade, o Doca, uma das lideranças do CV no Rio e foragido há mais de uma década. O rondoniense relatou uma agressão a membros do CV por faccionados do PCC na Penitenciária Edvan Mariano Rosendo, em Porto Velho, expressando indignação e buscando uma solução.

Doca, por sua vez, indicou que Arnaldo da Silva Dias, o “Samurai” – chefe do tráfico em várias cidades do Sul Fluminense e condenado a mais de 50 anos -, deveria ser acionado para resolver a questão. Mesmo detido na Penitenciária Gabriel Ferreira Castilho (Bangu 3), Samurai utilizava celulares para mediar conflitos do CV, demonstrando sua importância na hierarquia da facção.

Centralização de Poder e Acordos Nacionais

A atuação de Samurai como mediador de conflitos regionais é considerada pela polícia como a evidência da existência de um “diretor de governança corporativa de conflitos regionais” dentro do CV. Essa descoberta marca uma mudança significativa no organograma da facção, que desde 2016 vinha se expandindo pelo país.

Após um rompimento com o PCC em 2016, o CV firmou alianças com grupos criminosos locais, como a Família do Norte (FDN) no Amazonas, que foram gradualmente absorvidos pela estrutura carioca. Inicialmente, os chefes locais possuíam autonomia, mas a tendência agora é de maior controle da cúpula do Rio.

Trégua Frágil e Desgastes Internos

Outras conversas interceptadas pela polícia revelam que Doca e Samurai discutiam diariamente problemas relacionados à trégua com o PCC em diferentes estados. Em uma das comunicações, Doca compartilhou um comunicado interno da facção que proibia “batismo no nosso estado pelo PCC” no Mato Grosso.

Samurai comentou sobre o desgaste gerado pelo tema, mencionando que um líder conhecido como “Matemático” havia afirmado que o estado era deles e que não haveria “batismo” nem na rua nem na cadeia. Ele expressou cansaço em debater a questão, indicando a complexidade da manutenção do acordo.

Samurai Transferido, mas Influência Persiste

A influência de Samurai dentro da cadeia já havia sido destacada anteriormente. Em fevereiro de 2024, um comunicado redigido por ele determinou que a facção “segurasse sete dias sem guerras e roubo” durante uma reunião do G20 no Rio, a pedido de um “representante das autoridades no Rio”.

Em novembro do ano passado, Samurai foi transferido do Complexo de Gericinó para a Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná, após pedidos das forças de segurança do Rio. Ele integrou um grupo de sete presos cuja transferência foi solicitada na mesma semana de uma megaoperação que resultou em 123 mortes. A Secretaria de Polícia Penal (Seppen) informou que, enquanto esteve no Complexo de Gericinó, Samurai respondeu a processos administrativos por faltas disciplinares, incluindo a posse e utilização de aparelhos telefônicos.

A trégua entre CV e PCC, que durou menos de três meses, até abril de 2025, acabou sendo inviabilizada por rixas em diversos estados, evidenciando os desafios na gestão de conflitos em uma organização com atuação nacional.

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