O comerciante Julio Agra, dono de uma loja de madeiras que funcionou cerca de 40 anos num trecho entre a Praça da República e a Rua Vinte de Abril, no Centro do Rio, viu ruir nos últimos anos o seu imóvel e outros três casarões vizinhos. O que ele ocupava desabou em meados do ano passado, ficando apenas o prédio da esquina, em cujo andar térreo funciona um bar. Atualmente, o seu estabelecimento está em novo endereço, na Rua Frei Caneca.
“Era para ser uma tragédia. Só não foi porque o desabamento aconteceu à noite, quando a loja já estava fechada”, diz Julio Agra sobre o imóvel da Praça da República.
No dia 8, durante o Desfile das Campeãs, desmoronou parte do casarão onde funcionou a Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio, na Avenida Mem de Sá, na Lapa, não muito longe do Sambódromo.
“A gente já tinha avisado sobre o risco de desmoronamento várias vezes. A cidade está abandonada”, reclamou Laura Jannuzzi, dona do imóvel vizinho, que teve parte do telhado danificada.
A Prefeitura informou que o casarão já havia sido vistoriado e interditado. Tanto nesse caso como nos da Praça da República, não houve vítimas. Mas a preocupação da população se justifica. Somente nos primeiros dois meses e meio do ano, o portal 1746 recebeu 633 chamados com pedidos de vistoria pela Defesa Civil para imóveis com ameaça de desabamento no Centro. O órgão não informou quantos resultaram em interdições.
Apesar dos esforços da Prefeitura em ocupar prédios e casarões com iniciativas como o Reviver Centro e o Reviver Cultural, muitos ainda permanecem vazios. O grupo SOS Patrimônio estima que o número esteja entre 600 a 750. Um mapeamento da Subprefeitura do Centro e Centro Histórico detectou 160 em aparente estado de abandono.
Em outubro de 2023, os riscos à população levaram à publicação do decreto 53.306, que, na prática, permite que o município tome para si o imóvel em casos de abandono pelos proprietários e do não pagamento de impostos pelo período mínimo de cinco anos.
Passeio entre ruínas
Desde a adoção da medida, já passaram para o município dois imóveis: um no Centro e outro no Catete. O uso que será dado deles ainda não foi definido pela Prefeitura. Outros cinco, todos no Centro, estão em processo de análise, segundo a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento. O órgão garante que periodicamente técnicos da subprefeitura local fiscalizam imóveis abandonados e acionam a Defesa Civil para ação emergencial, caso seja constatado risco iminente de colapso da estrutura.














