Cassandra Rios, a Voz Censurada da Literatura Lésbica Brasileira, Será Reeditada
A escritora Cassandra Rios, conhecida por ser a primeira mulher a vender mais de um milhão de exemplares no Brasil e uma das autoras mais censuradas do país, terá dois de seus romances eróticos lésbicos reeditados. O lançamento está previsto para 2027, pela editora mineira Relicário Edições.
Esta iniciativa busca não apenas trazer de volta às livrarias e plataformas digitais obras que foram silenciadas, mas também celebrar o legado de uma autora que abriu caminho para a representação do desejo e das relações entre mulheres na literatura brasileira.
“Nosso trabalho ao resgatar Cassandra também é um gesto de justiça. É devolver à literatura o seu papel de dar visibilidade a quem sempre esteve aqui, desejando e existindo”, afirma Maíra Nassif, editora-fundadora da Relicário Edições, conforme divulgado.
Resgate de um Legado Pioneiro
O projeto de reedição foi viabilizado após a editora firmar um contrato com o espólio da escritora, que faleceu em 2002. Os primeiros títulos a serem relançados são “Um Escorpião na Balança” (1965), que narra o amor entre duas mulheres, e “A Santa Vaca” (1984), obra que reflete as perseguições e o preconceito enfrentados pela própria Cassandra Rios.
A editora Relicário Edições pretende apresentar a uma nova geração a escritora que foi vanguardista e desafiou a censura da Ditadura Militar. A curadoria da coleção “Cassandra Rios” está sob a responsabilidade de Joice Nunes, que coordena o projeto com atenção à qualidade da obra.
A Safo de Perdizes e a Luta Contra a Censura
Nascida Odete Rios em 1932, Cassandra Rios adotou o pseudônimo que se tornaria icônico. Ao longo de cinco décadas, publicou mais de 100 obras, das quais 36 foram censuradas durante os anos 1970, consolidando-a como a autora mais perseguida pela ditadura militar.
Cassandra Rios foi uma figura importante na resistência intelectual e no movimento LGBTQIA+ em São Paulo, chegando a ser presa diversas vezes. Apesar da cautela, jamais escondeu sua orientação sexual ou sua relação com a companheira, Vera Ortega, conhecida como Pabla.
Com uma escrita sensível e ousada, Cassandra Rios questionou o estigma sobre pessoas homossexuais e desafiou os preconceitos da sociedade. Seu primeiro livro, “Volúpia do Pecado” (1948), foi escrito aos 16 anos e aborda suas próprias reflexões sobre sexualidade.
Sucesso Comercial e Crises Financeiras
Apesar de ter sido a primeira mulher a vender mais de um milhão de exemplares no Brasil, Cassandra Rios enfrentou sérias crises financeiras. A censura de suas obras mais importantes resultou na perda de bens como joias, carro, sua casa em Interlagos e a livraria na Avenida São João, que era um ponto de encontro para estudantes e intelectuais.
A trajetória de Cassandra Rios, a “Safo de Perdizes”, é retratada no documentário “Cassandra Rios – A Safo de Perdizes” (2013), disponível gratuitamente no YouTube, que foi realizado com fundos do projeto Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.














