Nenhuma das 123 mortes ocorridas durante operações policiais nos complexos do Alemão e da Penha foi gravada por câmeras corporais da Polícia Militar. Os dados constam em levantamento recente sobre o uso dos equipamentos de monitoramento no Rio de Janeiro.
As operações analisadas mobilizaram centenas de agentes nas duas regiões da Zona Norte da capital fluminense. Mesmo com o equipamento acoplado aos uniformes dos policiais, os registros visuais e sonoros dos momentos dos confrontos fatais não foram arquivados nos sistemas oficiais da corporação.
Falta de imagens das mortes reabre debate sobre fiscalização da PM
O monitoramento individual por vídeo foi implementado na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro para garantir transparência nas abordagens e preservar tanto a vida dos agentes quanto os direitos dos cidadãos. O projeto previa a gravação contínua dos turnos operacionais, com armazenamento digital de todas as ocorrências.
No entanto, a ausência de gravações nos episódios mais letais dos complexos da Penha e do Alemão gerou questionamentos de órgãos de controle. O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro acompanha os inquéritos instaurados pela Polícia Civil para investigar cada uma das mortes registradas sob a rubrica de auto de resistência ou intervenção legal.
Moradores e familiares das vítimas relatam que a falta de filmagens dificulta a conclusão dos inquéritos periciais. Sem o apoio das câmeras corporais, a reconstituição dos fatos depende exclusivamente dos depoimentos prestados pelos próprios policiais e de laudos cadavéricos emitidos pelo Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto.
O que já se sabe sobre as falhas de gravação
As justificativas apresentadas em investigações preliminares apontam falhas técnicas, baterias descarregadas durante incursões longas ou desligamento manual dos aparelhos. Em alguns casos, unidades especiais que atuaram na linha de frente não estavam equipadas com os dispositivos no momento em que os disparos aconteceram.
A Secretaria de Estado de Polícia Militar afirma que as diretrizes do programa exigem o acionamento dos equipamentos em qualquer tipo de patrulhamento ou operação repressiva. A corporação declarou ainda que apura eventuais infrações disciplinares por meio de sua Corregedoria Geral quando há descumprimento injustificado do protocolo de uso.
Entidades de direitos humanos e coletivos de moradores apontam que o problema se repete em incursões rotineiras nas favelas cariocas. A Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro solicitou formalmente esclarecimentos à Justiça para que as operadoras de tecnologia expliquem a lacuna nos arquivos de imagem.
Como fica a rotina nas comunidades da Zona Norte
As operações nas regiões do Alemão e da Penha costumam paralisar o cotidiano de milhares de trabalhadores. O comércio das vias principais, como a Estrada do Itararé e a Avenida Nossa Senhora da Penha, fecha as portas com frequência durante os confrontos.
As unidades de ensino da rede municipal e estadual também sofrem impactos diretos. Escolas e creches costumam adotar o atendimento remoto temporário quando ocorrem tiroteios nos acessos às comunidades. As linhas de ônibus que cruzam os bairros de Olaria, Ramos, Penha e Bonsucesso sofrem desvios de rota determinados pelas empresas operadoras até a estabilização do território.
Os postos de saúde locais, como Clínicas da Família e Unidades de Pronto Atendimento, frequentemente suspendem visitas domiciliares de agentes comunitários em períodos de operação militar para garantir a integridade das equipes.
Como denunciar abusos em operações
Quem presenciar irregularidades ou for vítima de abusos de autoridade durante operações policiais pode formalizar denúncias nos canais oficiais de fiscalização:
- Disque Denúncia: Ligue para o telefone (21) 2253-1177. O canal funciona de forma anônima, 24 horas por dia, todos os dias da semana.
- Corregedoria Geral da Polícia Militar: O cidadão pode entrar em contato pelo telefone (21) 2725-9000 ou registrar queixa na Rua Visconde de Sepetiba, 519, no Centro de Niterói.
- Ouvidoria da Polícia do Rio de Janeiro: Atende pelo telefone (21) 2334-9040, recebendo manifestações sobre atuação de agentes de segurança.
O que fazer se você foi vítima
Pessoas que sofreram danos materiais, agressões ou tiveram parentes atingidos em incursões policiais devem procurar a 1ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar ou a delegacia de Polícia Civil da circunscrição para registro de boletim de ocorrência.
Também é possível buscar auxílio jurídico gratuito no Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos da Defensoria Pública do Rio de Janeiro. A sede fica na Avenida Marechal Câmara, 314, no Centro do Rio, com atendimento de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h. Para o atendimento, é importante levar documento com foto, comprovante de residência e todos os laudos médicos ou fotos que ajudem a comprovar os fatos.














