Acusações de abuso já cercam papa Leão XIV

papa Leão XIV

Eleito na última quinta-feira (8), o papa Leão XIV assume o comando da Igreja Católica sob forte expectativa mundial, mas também sob os primeiros sinais de pressão em relação à crise dos abusos sexuais. O passado do pontífice norte-americano no Peru reacende questionamentos sobre sua real disposição de enfrentar esse desafio com transparência.

Robert Francis Prevost, de 69 anos, é o 267º papa da Igreja e o segundo pontífice das Américas. Durante sua trajetória como bispo de Chiclayo, no norte do Peru, entre 2013 e 2025, ele foi confrontado com denúncias de abusos sexuais cometidos por sacerdotes. Apesar da importância do tema, organizações não governamentais apontam omissões e uma atuação considerada pouco eficaz na época.

A ONG Bishop Accountability, especializada em monitorar a resposta da Igreja a esses crimes, divulgou um comunicado após a eleição questionando o compromisso do novo papa com a transparência. “O papa Leão XIV transformará a luta contra abusos e encobrimentos em prioridade?”, indagou Anne Barrett Doyle, codiretora da entidade, em depoimento à imprensa internacional.

O histórico que levanta suspeitas está relacionado à forma como Prevost teria tratado denúncias apresentadas por três vítimas à diocese de Chiclayo. Segundo a SNAP (Rede de Sobreviventes de Abuso Sexual por Sacerdotes), as queixas foram ignoradas pela Igreja local, sem a devida abertura de investigação. Diante da inércia, os denunciantes recorreram às autoridades civis em 2022.

Ainda de acordo com a SNAP, o então bispo teria enviado informações incompletas ao Vaticano e permitido que o sacerdote acusado continuasse celebrando missas. A omissão, segundo as entidades, contraria os princípios defendidos publicamente pelo papa Francisco, que tentou promover maior rigor na apuração dos abusos dentro da Igreja.

Em contraponto às acusações, a Conferência Episcopal Peruana divulgou nota afirmando que o agora papa “abriu caminho” para a defesa das vítimas. O pronunciamento foi feito logo após a eleição de Leão XIV, numa tentativa de reafirmar seu compromisso com os valores cristãos e com o combate aos crimes de abuso dentro da instituição.

No entanto, para especialistas e vítimas, apenas declarações institucionais não são suficientes. A exigência por medidas práticas e públicas cresce entre organizações de defesa dos direitos humanos. Publicar os nomes dos acusados, abrir investigações e afastar religiosos envolvidos são algumas das ações esperadas.

O momento também reacende a discussão sobre o chamado “regime de sigilo” dentro da Igreja, frequentemente apontado como um dos principais obstáculos à responsabilização dos agressores. A Bishop Accountability cobra uma ruptura definitiva com essa cultura de encobrimento e vê na nova liderança uma oportunidade decisiva — ou um novo retrocesso.

Ainda é cedo para avaliar qual será a postura do papa Leão XIV à frente do Vaticano diante desses desafios. O início de seu papado será acompanhado de perto por fiéis, imprensa e organizações que esperam avanços concretos no enfrentamento de um dos maiores escândalos da história da Igreja.

A nomeação de um pontífice agostiniano — o primeiro da ordem a ocupar o cargo — também levanta expectativas sobre um estilo de liderança mais voltado à humildade e à escuta. Mas o passado recente e os pontos ainda mal resolvidos em sua trajetória no Peru colocam um alerta logo nos primeiros dias de sua atuação.

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